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Arte e barbárie

Luiz Zanin Oricchio

08 Janeiro 2007 | 14h08

No Cultura de ontem, Vargas Llosa escreve um interessante artigo sobre o romance Les Bienviellantes, de Jonathan Littel, que já abordamos aqui mesmo neste blog. Não voltarei a ele, mas, apenas para situar a quem ainda não leu nada a respeito, o herói desse livro (de quase 900 páginas e grande sucesso literário na França) é um oficial da Gestapo que conta, de viva voz, e em detalhes, os horrores dos quais participou na 2.ª Guerra.

O que me interessa, hoje, é outro aspecto, um trecho do livro que impressionou particularmente a Llosa. Cito: “Uma das melhores cenas do livro é uma recepção de altas autoridades nazistas em que Adolf Eichmann aparece ansioso para aplicar à presente situação alemã a noção kantiana do imperativo categórico, e outra em que, numa caçada nos arredores de Berlim, a esposa de um gerenal nazista explica a filosofia de Heidegger. Estas páginas do livro parecem uma ilustração bastante gráfica da famosa frase de George Steiner, se perguntando como foi possível que o mesmo povo que gerou Beethoven e Kant, engendrara também Hitler e o Holocausto: ‘As humanidades não humanizam’.”

Eis aí o que deixou perplexo Steiner, Llosa e a todos nós, que de uma forma ou de outra nos dedicamos às artes e às humanidades. Damos de barato, como se fosse evidente, que elas humanizam as pessoas, melhoram a espécie e a tornam mais sensível e compassiva para com os semelhantes. E eis aí mais um livro a jogar na nossa cara que alguns dos carrascos nazistas eram seres refinados, que cultivavam o espírito, estudavam filosofia e ouviam a melhor música. Há exemplos de outros tiranos cultos e assassinos de extremo bom gosto. Mas, convenhamos, o caso nazista é um clássico no gênero.

Depois de citar Steiner, Llosa larga o assunto e encaminha seu texto para outro lugar. Como se fosse incapaz de encarar mais que por um instante o horror que contemplou – porque talvez se sinta atacado no ponto mais sensível de um artista: o questionamento do caráter civilizatório da arte, da qual se sente um representante. É um pensamento em abismo, mas que temos obrigação de enfrentar.

Assinantes do Estadão podem ler o artigo de Vargas Llosa na íntegra.