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Arruda e as imagens

Luiz Zanin Oricchio

12 Fevereiro 2010 | 19h29

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Não se sabe em que vai dar essa prisão do governador do DF, José Roberto Arruda. Parece que passa o carnaval em cana, mas nunca se sabe: não se pode subestimar a justiça brasileira. Termine como for, o affair já é ilustrativo de alguma coisa que todos deveríamos saber – a força das imagens. Por que esse caso não continuou impune, como tantos outros? Bem, parece que determinante é o fato de haver imagens altamente incriminadoras. Pelo menos é o que analistas políticos têm dito: não fossem essas imagens gravadas e Arruda ainda poderia se esconder no cipoal jurídico que permite todas as firulas aos acusados espertos. Mas como foi pego com a, por assim dizer, boca na botija, não há como recuar. A imagem é forte. A imagem convence. Ela tem a força de mil palavras, segundo o dito popular.

Ora, nem sempre é assim. Nós, que trabalhamos com a imagem, conhecemos de sobra a sua força, seu poder de convencimento. Mas sabemos também que elas podem ser ambivalentes ou, pelo menos, tão ambíguas quanto as palavras. Para dar um exemplo ameno: as imagens são muito presentes hoje em dia nos jogos de futebol, com as TVs dispondo de inúmeras câmeras para a transmissão. Desse modo, qualquer erro da arbitragem é facilmente detectado. As câmeras seriam uma comprovação da verdade – um selo garantia que os juízes, humanamente limitados, não podem assegurar. Há, por parte da mídia, campanha para que a Fifa introduza meios eletrônicos na arbitragem, como se essa providência resolvesse tudo. Ora, sabemos que nem sempre a imagem diz a última palavra. Se ela pode ser decisiva para saber se houve impedimento de um atleta ou não, talvez seja incapaz de dizer se a mão de um jogador, encostando em outro, foi determinante para a queda do primeiro dentro da área, o que obrigaria a marcação de um pênalti. Acontece que mais sensível das câmeras não flagra a intensidade de um gesto, coisa que um juiz bem posicionado pode detectar com um pé nas costas.

Todos que gostam de cinema conhecem o filme de Antonioni que trata do assunto. Blow Up (literalmente, ampliação) é inspirado no conto de Julio Cortazar Las Babas del Diablo. A história é a de um fotógrafo de moda (David Hemmings) que bate umas fotos de uma moça (Vanessa Redgrave) num parque londrino. Mais tarde, em seu laboratório, ele procede a diversas ampliações da chapa, até conseguir enxergar na imagem algo que não aparecia à primeira vista. Há aí um processo de desestabilização. O olhar não nos diz tudo. Uma fotografia talvez nos faça ver um pouco mais. Mesmo assim, o processo de ampliação não pode ser levado de modo indefinido…ele tem seus limites.

Mesmo em seu grau máximo, com a granulação total da imagem fotográfica, apenas sugere que numa cerca ao fundo, atrás da mulher em primeiro plano, existe algo que se assemelha a um corpo caído. Assim, um crime pode ter sido cometido e ninguém ficou sabendo. Mas tudo, a partir daí, é interpretação. Claro que a realidade, em se tratando de Antonioni (para não falar de Cortázar), é algo a ser construído. Nunca se dá de imediato. Estamos imersos em um mundo de sombras e espelhos, e nosso olhar nunca é claro, e muito menos completo. O filme fala sobre isso, mas também fala sobre o cinema como instrumento de aproximação a esse real fugidio.

Se levarmos o raciocínio ao limite, chegaremos à conclusão de que não podemos ter certeza de nada. Se pensarmos bem, as palavras enganam tanto quanto as imagens. Além de não sabermos quem está dizendo a verdade ou mentindo, as palavras são, em si, ambivalentes. Têm muitos sentidos diferentes, dependem do contexto em que são faladas e variam segundo a entonação ou expressão facial ou gestual de quem fala. Não nos dão mais segurança do que as imagens. Longe disso.

Toda essa dúvida metódica pode ser bem saudável, porém paralisante, porque no mundo das coisas precisamos tomar decisões, escolher entre alternativas e, last but not least, fazer justiça. Os ingleses, de espírito pragmático, quando ouviam os argumentos sobre a possibilidade de conhecer algo a fundo, diziam que os homens se encontravam no market place e lá se entendiam. Quer dizer: a despeito das incertezas da linguagem, ela comunica e com ela, apesar de toda ambivalência, procuramos nos entender.

De modo que, se é impossível provar a verdade de alguma coisa, todos os indícios nos levam numa determinada direção. E, quando aparece uma imagem forte, para chancelar toda a desconfiança, seu poder é avassalador. O dinheiro vivo é uma imagem forte. Já se disse sensibiliza demais o povo, porque este tem a real dimensão da dificuldade de ganhá-lo. A imagem de um monte de dinheiro liquidou a candidatura de Roseana Sarney. Pode acabar com a carreira de Arruda.

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Nota: Abri no blog essa rubrica “Conexões” porque acho que a cultura anda muito compartimentada – e por isso chata, além de inócua. As coisas se relacionam, o que não quer dizer que se possam trilhar todos os caminhos, ou cair na vala comum das analogias gratuitas. O difícil é saber quais atalhos percorrer e quais aproximações estabelecer para que fatos e idéias, aparentemente isolados, possam ser colocados em contato e iluminar-se uns aos outros. É um desafio e tanto. E, portanto, muito estimulante.