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Arrogância rima com ignorância

Luiz Zanin Oricchio

24 Maio 2007 | 13h51

As pessoas devem ser avaliadas pelo que fazem. Um bom mecânico detecta o defeito do seu carro e o conserta. Um médico acerta no diagnóstico e prescreve o remédio da cura. Um artesão conhece o seu instrumento de trabalho e, com ele, afronta a matéria a ser moldada. E assim por diante.

Ensaístas e pesquisadores refletem sobre seus objetos de estudo e traduzem essa meditação em obras. Definem-se por aquilo que escrevem e pela influência que seus livros ou artigos exercem. Uma boa maneira de “medir” a importância de obras é contabilizar o número de vezes que são citadas em obras posteriores. Falei de Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet no meu post anterior. Não foram escolhidos por acaso ou por simpatia pessoal. Perguntem a qualquer pessoa com algum conhecimento do meio cinematográfico se é possível dispensar a leitura de livros como Sertão Mar e Alegorias do Subdesenvolvimento, de Ismail, ou Brasil em Tempo de Cinema e Cineastas e Imagens do Povo, de Bernardet.

Esses livros, alguns deles escritos há muitos anos, continuam sendo lidos e têm fertilizado com suas idéias a reflexão contemporânea sobre o cinema. Quem tiver algum interesse sério no assunto não pode dispensar a sua leitura. Não são bíblias, mesmo porque estamos aqui tratando do pensamento laico e portanto livre. Não reconhecemos o magister dixit do escravo intelectual. Mas estas são obras estimulantes, das quais saímos enriquecidos mesmo que discordemos delas, em parte ou no todo.

A atitude de descartar com um muxoxo obras que nunca leu ou autores de quem nunca se ouviu falar, abominar filmes que nunca viu, revela que, no Brasil, chegamos a uma associação explosiva da ignorância com a arrogância. Palavras que rimam, mas não apontam para qualquer solução.