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Onde está a Espanha de Picasso e Lorca?

Luiz Zanin Oricchio

07 de março de 2008 | 10h23

A primeira vez que viajei à Espanha, lá pelo final dos anos 70, fui supreendido pela imigração do Aeroporto de Barajas. Estava no final da fila, quando o policial que fazia o controle avistou meu passaporte verde e perguntou: “Brasileño?” Fiz que sim. Ele abriu um sorriso e disse: “Pase, hombre!” Nunca esqueci esse cumprimento de boas-vindas e a Espanha me conquistou por completo, e para o resto da vida.

E nem precisava disso, porque na minha bagagem afetiva já havia Picasso, Buñuel, Lorca e todos os heróis da Guerra Civil de resistência ao fascismo. Sem contar o flamenco, suas bailarinas esplêndidas, e mais Paco de Lucia, Tomatito e Camarón de La Isla.

Falando em Guerra Civil, dias depois da chegada a Madri fui ao Prado, onde a grande sensação era a volta de Guernica ao país redemocratizado. Como vocês lembram, Picasso havia determinado que sua obra, que estava em Nova York, só deveria retornar à Espanha quando lá houvesse democracia e era o que estava acontecendo.

Mas como a liberdade ainda era recente (e tinha havido a tentativa de putsch de Tejero de Molina), os cuidados com a obra eram grandes. Ela ficava isolada por um vidro à prova de balas e ainda havia um cordão de isolamento que a deixava à distância.

Eu contemplava a obra de Picasso, embevecido, quando uma mulher, ao meu lado, avançou e cruzou tranqüilamente o cordão de isolamento para vê-la de perto.

Um guarda tentou detê-la e iniciou-se o bate-boca. A mulher dizia que seu pai havia lutado contra os fascistas e morrido em combate; não seria um guardinha que a faria recuar. O homem ainda tentou dialogar: “Não estou pedindo nada de mais, a senhora apenas dê um passinho para trás”. Resposta: “Foi por termos dado um passinho para trás que ficamos tanto tempo sob o tacão de um tirano”. E não recuou.

Essa é a Espanha que eu amo: insurgente, corajosa, apaixonada.
Não essa Espanha mesquinha e aburguesada, que agora se põe a cometer iniqüidades contra viajantes brasileiros. Essa tem o meu repúdio. Não reconheço nela os sentimentos generosos de tantos libertários espanhóis que lutaram contra Franco.

E não sei o que o governo brasileiro está fazendo que até agora não resolveu aplicar o princípio de reciprocidade aos cidadãos espanhóis que aqui chegam. Que passem pelos mesmos constrangimentos infligidos aos brasileiros no Aeroporto de Barajas, “se não tiverem a documentação adequada”.

Vai prejudicar o turismo? Vai, dona Marta, mas há certas coisas na vida que são inegociáveis. Se o Brasil não respeitar a si próprio, ninguém irá respeitá-lo. Temos de aprender que não se dá “passinho para trás” impunemente.

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