Arquitetura da destruição
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Arquitetura da destruição

Luiz Zanin Oricchio

31 de janeiro de 2010 | 12h50

orla

Acho que foi Arthur Xexéo quem escreveu outro dia que o calor infernal que está assolando o Rio de Janeiro deve-se à ausência de brisas. Está certo. Não há mais como o vento circular por entre aqueles paredões imobiliários erguidos na outrora Cidade Maravilhosa. Há um pouco disso em toda parte, e nem é preciso falar em São Paulo, um exemplo patológico e terminal de pseudo-desenvolvimento urbano.

Vamos a paragens até aqui mais amenas. Por exemplo, gosto de caminhar à beira-mar em Santos e, desse ângulo, constato a existência de edifícios que destoam dos padrões antigamente aceitos para a orla. A maior parte dos prédios lá existentes tem uns 12 andares, mas já se vêem, aqui e ali, espigões de 25, 30 ou mais andares. Outro dia li no jornal local, A Tribuna, que já existe projeto aprovado para um edifício de 38 andares, que, construído, será o mais alto de Santos.

O bairro do Gonzaga está sendo devastado pela especulação imobiliária e a Ponta da Praia, onde moro parte do tempo e onde pretendo viver de vez no futuro, vai pelo mesmo caminho. Perto das balsas para o Guarujá existe um monstruoso conjunto de torres de 30 andares, cujo cartão de visitas é um polvo em cimento armado que causa espanto a quem por ali passa. Outras torres, igualmente ameaçadoras, estão sendo construídas mais adiante, na direção da zona portuária. Há poucas semanas, as partes dos fundos dos terrenos dos tradicionais clubes da Ponta da Praia foram vendidas e o incorporador prometeu para lá um novo conjunto de torres. Pode-se imaginar o que virá.

Caso essa tendência continue, trata-se de nada mais nada menos que a destruição de uma linda e aprazível cidade o que se anuncia. Edifícios agressivos, pomposos em seu absurdo gigantismo, menos vento, mais calor, mais carros, mais tensão. Outro dia fui pagar uma conta no banco e ouvi uma senhora de idade dizendo a uma amiga: “Nossa, Santos era uma cidade tão calma, agora está um estresse danado…” Pelo que pude deduzir do pedaço de conversa ouvido, ela havia presenciado uma briga de trânsito e estava espantada com a agressividade das pessoas.

Tudo isso é sintoma de um problema crônico: no Brasil, as cidades não sabem crescer de forma sadia. As desculpas para esse inchaço desordenado são as de sempre: a construção civil gera empregos, as cidades têm déficit habitacional, etc. Como se, para crescer, criar empregos e dar moradia às pessoas, fosse preciso passar carta branca à especulação imobiliária. Ora, que inocência…O capital não quer nenhum entrave para a sua expansão e não se preocupa com as conseqüências. Quer multiplicar-se, e só. É da sua natureza, como naquela fábula da tartaruga e do escorpião. Cabe ao Estado impor limites e discipliná-lo. E cabe à sociedade civil pressionar os governos para que as cidades não sejam destruídas…em nome do progresso.

Recentemente esteve em Santos o extraordinário arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que vai fazer o projeto de um anexo para a Pinacoteca Benedito Calixto, instalada numa bela casa antiga à beira-mar. Em entrevista, Mendes da Rocha criticou essa tendência de prédios altos (super lucrativos para os incorporadores), lembrando de Lúcio Costa, urbanista de Brasília. Quando lhe perguntavam por que limitava os blocos do Plano Piloto a seis andares, Lúcio dizia que era a altura máxima em que a mãe podia chegar à janela e chamar para o almoço o filho que estava brincando lá embaixo.

Isso num tempo em que a arquitetura era uma arte humanística, que se preocupava com a qualidade de vida das pessoas e não com o lucro acima de qualquer outra consideração.

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