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Argo

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2012 | 13h50

Em Argo, a CIA é mesmo coisa de cinema. O filme de Ben Affleck reconstrói de maneira ficcional a participação da agência na retirada de reféns norte-americanos da Embaixada do Canadá em Teerã, em 1980. E essa trama de salvação terá muito a ver com Hollywood e seus criadores de mundos estranhos.

Affleck acerta ao reconstituir de maneira honesta o contexto histórico em que os fatos se dão: o longo reinado do Xá, pró-americano, por fim defenestrado pela revolução islâmica de Khomeini, em 1979. Em nenhum momento o filme procura colocar os norte-americanos como bonzinhos inocentes e vítimas dos ferozes muçulmanos. Pelo contrário, indica que o apoio à longa tirania de Reza Pahlevi abre caminho para soluções radicais. Em meio à violência revolucionária, a embaixada dos Estados Unidos é invadida e dezenas de funcionários americanos são tomados como reféns. Seis deles conseguem escapar e se refugiam na Embaixada do Canadá. A CIA recebe ordem de repatriá-los. Como fazer?

A ideia, de difícil execução, o espectador verá, tem a ver com o mundo do cinema e sua capacidade de criar ilusões. Nesse ponto brilham dois veteranos da indústria cinematográfica convocados para a operação, o produtor Lester Siegel (Alan Arkin) e o maquiador John Chambers (John Goodman). Se o cinema é a arte do simulacro, a equipe do agente Tony Mendez (o próprio Affleck) a levará ao extremo para iludir a vigilância iraniana.

Ao mesmo tempo em que recria, ficcionalmente, um episódio histórico real, Affleck lança um olhar irônico sobre o mundo do cinema, já então (estamos no início da década de 1980) dominado pelos financistas que o levaram à esterilidade atual. Algumas das melhores passagens de Argo estão nos diálogos entre os personagens de Arkin e Goodman, céticos e bem-humorados. Cinema inteligente, lamentando exatamente a falta de inteligência do cinema atual.

Ben Affleck está ok como Tony Mendez, o agente incumbido de montar e realizar a farsa para salvar os compatriotas. Como diretor, consegue manter o clima tenso de uma operação in extremis, delicada a ponto de qualquer detalhe comprometê-la. Mantém o espectador preso à cadeira, e igualmente tenso. Pelo menos até começar a lançar mão de expedientes mais corriqueiros do thriller, e então Argo cai um pouco. Entra no terreno do previsível, exatamente aquele que o diretor Affleck critica em parte do seu bom filme.

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