‘Arabia’ vence o 50º Festival de Brasília
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‘Arabia’ vence o 50º Festival de Brasília

Filme de Minas Gerais, que tem por pano de fundo a precarização do trabalho no Brasil, foi o grande vencedor da 50ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

24 de setembro de 2017 | 23h51

 

BRASÍLIA – Arábia, belo filme sobre o mundo do trabalho brasileiro, e o grande vencedor da 50ª edição de 2017 do Festival de Brasília. Além do troféu de melhor filme, venceu nas categorias de ator (Aristides de Souza), montagem e trilha sonora.

Também bastante premiado foi o filme baiano Café com Canela, que levou as estatuetas de roteiro e atriz (Valdineia Soriano), além do prêmio do público.

O filme local, Era uma Vez Brasília, ficou com os troféus de melhor direção (Adirley Queirós), fotografia e som.

O melhor curta foi Tentei, de Laís Melo, em torno da violência sobre a mulher.

Falemos um pouco do vencedor.

O longa mineiro de Affonso Uchôa e João Dumans Arábia tem como pano de fundo o mundo do trabalho. Trata-se de uma ficção, escrita em tons baixos da sutileza, com um protagonista chamado Cristiano (Aristides de Souza), um trabalhador típico do Brasil, morador na periferia de Contagem.

A história começa em Ouro Preto (MG), onde um rapaz encontra um caderno na casa de um dos operários da metalúrgica local e nele descobre um diário de vida. Era no caderno espiral que Cristiano esboçava e tentava dar sentido a uma vida errante, feita de muita necessidade, de alegrias e de tristezas. No meio do relato, ressalta a figura de Ana, mulher que amou e conheceu em um dos múltiplos empregos que teve.

Há que se prestar atenção à narrativa de Arábia. Ela é feita quase todo o tempo em off, a voz do trabalhador, na leitura que é feita do seu diário. Este é a descrição de uma vida, pelo ponto de vista de quem a viveu, isto é, parcial, como qualquer relato. Ele fala da prisão na juventude, depois como põe o pé na estrada em busca de um lugar no mundo. Lugar que será sempre problemático, e vai mudando ao sabor das oportunidades. Faz um pouco de tudo. Colhe mexericas numa fazenda, emprega-se numa tecelagem, ajuda na reforma de um bordel, dirige caminhão, etc. Cristiano é um típico trabalhador não especializado no Brasil, buscando chances de sobrevivência lá e cá, dormindo onde for possível, vivendo da mão para a boca.

Os momentos de felicidade são poucos. E, por isso, ele os guarda como joias preciosas. Um deles, em particular. À tarde, num parque de diversões, ele começa a namorar a mulher de sua vida, Ana. “Daria tudo para voltar a essa tarde, a esse parque”, escreve em seu diário. Inútil, porque o tempo não volta, a não ser no processo de escrita, que o registra mas não o resgata.

O tom geral é melancólico, embora haja momentos de respiro e de alegria. Exemplos, as rodas de bar entre amigos, música, algumas conversas muito engraçadas, como a que ele tem com um colega mais velho sobre qual tipo de carga é a a mais dura de carregar nos ombros. Cimento? Café? Telha? “Carregar porco vivo é o que há de pior no mundo”, conclui o colega mais experiente.

Arábia soma os encantos de um filme de estrada à reflexão sobre a precarização do mundo do trabalho. Seu personagem é comovente em sua crescente consciência sobre a falta de sentido do mundo em que vive e no qual apenas sobrevive. Sem ser panfletário em qualquer momento, o filme é político nas entrelinhas e em sua concepção geral. Emocionamo-nos com ele. E ele nos faz pensar sobre o mundo e o país em que vivemos e como nele são tratadas as pessoas mais humildes.

A cerimônia de entrega de prêmios, no Cine Brasília, foi precedida pela exibição fora de concurso do longa Abaixo a Gravidade, de Edgard Navarro, da Bahia.

Abaixo, a lista completa dos vencedores

PRÊMIOS OFICIAIS

 

Troféu Candango – Longa-metragem:

Melhor Filme: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans

Melhor Direção: Adirley Queirós por Era uma vez Brasília

Melhor Ator: Aristides de Sousa por Arábia

Melhor Atriz: Valdinéia Soriano por Café com canela

Melhor Ator Coadjuvante: Alexandre Sena por Nó do Diabo 

Melhor Atriz Coadjuvante: Jai Baptista por Vazante

Melhor Roteiro: Ary Rosa por Café com canela

Melhor Fotografia: Joana Pimenta por Era uma vez Brasília

Melhor Direção de Arte: Valdy Lopes JN por Vazante.

Melhor Trilha Sonora: Francisco Cesar e Cristopher Mack por Arábia

Melhor Som: Guile MartinsDaniel Turini e Fernando Henna por Era uma vez Brasília

Melhor Montagem: Luiz Pretti e Rodrigo Lima por Arábia

Prêmio Especial do Júri: Melhor Ator Social para Emelyn Fischer, por Música para quando as Luzes se apagam

 Júri Popular ( Prêmio Petrobras de Cinema) longa-metragem: Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio

 

 

PRÊMIOS OFICIAIS – Troféu Candango – Curta-metragem:

 

Melhor Filme: Tentei, dirigido por Laís Melo

Melhor Direção: Irmãos Carvalho por Chico

Melhor Ator: Marcus Curvelo por Mamata

Melhor Atriz: Patricia Saravy por Tentei

Melhor Roteiro: Ananda Radhika por Peripatético

Melhor Fotografia: Renata Corrêa por Tentei

Melhor Direção de Arte: Pedro Franz e Rafael Coutinho por Torre

Melhor Trilha Sonora: Marlon Trindade por Nada

Melhor Som: Gustavo Andrade por Chico

Melhor Montagem: Amanda Devulsky e Marcus Curvelo por Mamata 

Prêmio? ?especial: Peripatético, dirigido por Jéssica Queiroz

Júri Popular – Curta-metragem: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina

 

OUTROS PRÊMIOS

 

Prêmio Canal Brasil: Chico, dirigido por Irmãos Carvalho

Prêmio Abraccine

Melhor filme de longa-metragem: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans

Melhor filme de curta-metragem: Mamata, dirigido por Marcus Curvelo

Prêmio Saruê: Afronte, direção de Marcus Azevedo e Bruno Victor

Prêmio Marco Antônio Guimarães: Construindo pontes, dirigido por Heloísa Passos

Prêmio CiaRio/Naymar

Para o melhor curta pelo Júri Popular: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina 

 

MOSTRA BRASÍLIA – 22º Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal 

 

Prêmios do Júri Oficial: 

Melhor longa-metragem (R$ 100 mil): 

O fantástico Patinho Feio, dirigido por Denilson Félix

Melhor curta-metragem (R$ 30 mil): 

UrSortudo, dirigido por Januário Jr.

Tekoha – Som da Terra, dirigido por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron

Melhor direção (R$ 12 mil): Dácia Ibiapina, por Carneiro de ouro

Melhor ator (R$ 6 mil): Elder de Paula, por UrSortudo

Melhor atriz (R$ 6 mil): Rafaela Machado, por Menina de barro

Melhor roteiro (R$ 6 mil): Januário Jr., por UrSortudo

Melhor fotografia (R$ 6 mil): Gustavo Serrate, por A margem do universo

Melhor montagem (R$ 6 mil): Lucas Araque, por Afronte

Melhor direção de arte (R$ 6 mil): Bianca NovaisFlora Egécia e Pato Sardá, por O Menino Leão e a Menina Coruja

Melhor edição de som (R$ 6 mil): Maurício Fonteles, por Tekoha – Som da Terra

Melhor trilha sonora (R$ 6 mil): Ramiro Galas, por O vídeo de 6 faces

 

Prêmios do Júri Popular

Melhor longa-metragem (R$ 40 mil): Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

Melhor curta-metragem (R$ 10 mil): O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro

 

Prêmio Petrobras de Cinema – Para o melhor longa-metragem pelo Júri Popular da Mostra Brasília:

Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

 

Prêmio Plug.in

Para o melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília:

Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

 

Prêmio ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo

Marco CuriManfredo Caldas e Gerlado Moraes

 

Prêmio CiaRIO

– Melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília:

Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

 

– Melhor curta-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília:

O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro

 

FESTUNIBRASÍLA – 1º FESTIVAL UNIVERSITÁRIO DE CINEMA DE BRASÍLIA

 

Melhor Filme: O arco do medo, dirigido por Juan Rodrigues (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) 

Melhor Direção: Fervendo, dirigido por Camila Gregório (Universidade Federal do Recôncavo Baiano) 

Júri Popular: O Homem que não cabia em Brasília, dirigido por Gustavo Menezes (UnB)

Menção Honrosa – Método de construção criativa: Afronte, dirigido por Bruno Victor e Marcus Azevedo (UnB) 

Menção honrosa – Fotografia: Gabriela Akashi, por Serenata (USP)

Menção Honrosa – Filme de animação: Mira, dirigido por Janaína da Veiga (Unespar) 

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