Ao Sul da Fronteira
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Ao Sul da Fronteira

Luiz Zanin Oricchio

03 de junho de 2010 | 08h27

oliver

 

Sem se prestar atenção ao título não se entende o filme. Ao Sul da Fronteira é um documentário dirigido por um norte-americano descrente de que a o mundo acaba no Rio Grande. Há vida ao Sul, além desses limites. E é nele que Oliver Stone vai encontrar o que, em sua visão, seria uma série notável de governos que se recusam a seguir a cartilha de Washington – a Venezuela de Hugo Chávez, a Argentina dos Kirchners, o Brasil de Lula, o Paraguai de Fernando Lugo, o Equador de Rafael Correa e, de maneira um tanto lateral, a Cuba de Raúl Castro. Governos de centro-esquerda, ou esquerda. É neles que Oliver Stones, o diretor de Nascido a 4 de Julho e JFK, entre muitos outros filmes provocativos, localiza o sal da terra. Daí a resistência que seu documentário provocou em seu país de origem e em outros. Em tempo de pensamento único, não se costuma discutir determinados temas.

À sua maneira, Ao Sul da Fronteira é, também, um filme sobre os meios de comunicação, ou parte deles, fabricantes de estereótipos. As primeiras imagens são de apresentadora de TV, em uma conhecida rede de televisão americana, dizendo, histericamente, que aqueles ditadores eram todos viciados em “cacau” (sic). Um dos seus colegas sugere que ela estaria confundindo cacau com cocaína. E ele responde que é tudo mais ou menos a mesma coisa. O processo de demonização toma assim um viés caricato. Mas, de qualquer forma, com mais ou menos grosseria, é típico de um tipo de mídia que deseja provocar reações emocionais ao invés de reflexão; reforçar preconceitos em vez de discutir idéias. O mundo das comunicações, tornado histérico por seu casamento com o show biz, é esse primeiro alvo de Stone – e ficará em contraluz quando o diretor construir o seu próprio discurso ideológico.

Pois esse road movie  político tem esse tom. Não chega a ser um panfleto. Mas expressa um ponto de vista. E não se preocupa em matizar as cores. Em especial ao visitar o país do personagem principal, a Venezuela. Então termos Stone em entrevista com Chávez. O personagem é envolvente, fanfarrão, conta a sua vida, a história. O resto vem sob a forma de imagens de arquivos. A tentativa de aplicar um golpe, a prisão, a eleição, a maneira como reagiu a um golpe contra ele. De certa forma, e mesmo sem querer, o filme é uma ilustração dos usos e costumes políticos de uma certa era da América Latina. Certo, é na América Hispânica. Mas basta consultar o nosso passado recente para nos vacinarmos contra qualquer pretensão de superioridade a essa mundo de casernas interferindo na política, “pronunciamientos” e golpes de estado.

O périplo de Stone o vai levando a outros países. Conversa com os presidentes e colhe algumas imagens (e palavras) interessantes. Masca uma folha de coca em companhia de Evo Morález. Chávez cai de uma bicicleta, cuja estrutura não suporta seu peso. Lula mostra-se super à vontade e fala de mundo multilateral. Lugo, parece um tanto tímido mas lembra que quebrou uma longa hegemonia do partido conservador em seu país. Correa é incisivo. Quando lhe perguntam por que negou permissão à instalação de uma base americana no Equador, responde que fez uma contraproposta. Os americanos poderiam instalar uma base naquele país, desde que permitissem a instalação de uma base equatoriana em Miami. Cristina Kirchner fala em uma nova estrutura de mundo e responde à altura uma pergunta inoportuna de Stone. O diretor lhe pergunta quantos pares de sapato têm no armário (seria uma alusão a Imelda Marcos?) Cristina lhe responde que nunca se pergunta aos homens quantas calças têm em seus guarda-roupas. Raúl Castro garante que Cuba está preparada para mais cinqüenta anos de socialismo.

As reações desses presidentes são significativas. Gostemos deles ou não, parecem dizer que a época das cabeças baixas terminou. Não estão dispostos a alinhamentos internacionais automáticos e procuram governar para as camadas mais pobres. O discurso às vezes pode parecer populista, mas, de qualquer forma, é feito a contrapelo de outro discurso que se poderia chamar de dominante ou consensual. Ao Sul da Fronteira busca o contradiscurso. Para combater uma visão unilateral, que julga preconceituosa, ele propõe outra visão unilateral. É uma espécie de contrapeso ao preconceito. Importante, nesse sentido.

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