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Ao Lado da Pianista

Luiz Zanin Oricchio

02 Fevereiro 2008 | 11h00

Dizer isso pode não ser lá politicamente correto, mas parece que a vingança é dos sentimentos humanos mais primários – no sentido da antiguidade, claro. Tanto assim que até um músico como Rimsky-Korsakov escreveu uma bela suíte – Antar – em que coloca a vingança em pé de igualdade aos dois outros grandes prazeres humanos, o poder e o amor. Enfim, é no ambiente refinado da música clássica que se passa essa pequena história de revanche contada no filme francês Ao Lado da Pianista (La Tourneuse de Pages), de Denis Dercourt.

Imagine uma criança, filha de açougueiros, em uma pequena cidade do interior, que, ao que tudo indica, parece dotada para a música erudita. Vai prestar um concurso para o conservatório e está indo bem, até ser distraída por uma das juradas, pianista famosa, que permite a entrada de um estranho na sala de exame e lhe concede um autógrafo. A partir dessa intromissão, a garota se paralisa e não consegue prosseguir. O teste é um fiasco.

Essa é a situação inicial do filme. Mélanie (Déborah François) torna-se uma bonita moça que, depois de abandonar o piano, deve sobreviver como secretária de uma importante firma. O título em francês entrega a atividade secundária que ela ocupará, a serviço de uma virtuose que toca num trio famoso – irá virar as páginas da sua partitura durante os concertos.

O que existe de interessante nessa história, que a justifique? Sem dúvida, um senso de sutileza pouco comum. De um lado, temos Mélanie, figura do ressentimento. Alguém que poderia ter sido e não foi. De outro, uma pessoa frágil, apesar de poderosa em seu meio, e que tudo ignora do mal que pode ter cometido um dia.

Como Dercourt não deseja nunca deixar tudo muito explícito, o que temos será um clima psicológico intenso, em que palavras mais sugerem do que falam de maneira direta. Alusões que contribuem para a criação de uma atmosfera de tensão permanente. A atriz que interpreta Mélanie, Déborah François, é responsável por esse ambiente frio, tenso. Tem ar de anjo, leve sorriso nos lábios, beleza sedutora, porém não agressiva. Mexe-se como uma gata flexível e quase ronronante nesse meio burguês e culto, do dinheiro e da grande música.

Poderíamo dizer, pelo tom, que parece um filme inspirado em Claude Chabrol. Falta, porém, o toque do mestre, e sua suprema qualidade, o senso de humor. Dercourt não ri. Por isso, às vezes, precisa usar a música como muleta para criar seu clima. Mas o filme é bom. Como Antar, fala em vingança, poder e amor.

(Caderno 2, 1/2/08)