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Ao Entardecer

Luiz Zanin Oricchio

26 de julho de 2008 | 00h14

Ao Entardecer, de Lajos Koltai, começa como um drama promissor. Baseado em romance da americana Susan Minot, a história mostra uma moribunda, Ann (Vanessa Redgrave), que rememora o passado num sono delirante causado pela morfina, usada para aliviar a dor. Duas filhas (Toni Collete e Natasha Richardson) velam pela mãe em sua agonia. Elas se inquietam ao ouvir da boca da moribunda nomes que desconhecem e remetem a um passado que as antecede.

O espectador vê na tela a projeção desse passado. A começar pela própria Ann que, jovem, renasce na pele de Claire Danes, uma jovem encantadora dos anos 50. Nesse tempo, apaixonada pelo médico Harris Ardeb (Patrick Wilson), que ela conhece durante a cerimônia de casamento de sua melhor amiga, Lila (Mammie Gummer, jovem, Meryl Streep, madura). Lembra também da amizade e do trágico fim do seu amigo de escola, Buddy (Hugh Dancy), beberrão compulsivo e amado por todos e todas.

O filme oscila assim entre dois tempos. No presente, Ann dá adeus à vida e faz seu balanço final, em tom ora realista ora delirante. No passado, que é o tecido da história propriamente dita, acontece a costumeira teia de amores que não se realizam plenamente, dissabores entre amigas, etc. Tudo se move um pouco em torno de Harris, o objeto do desejo das amigas. Mas ele não se define muito bem, e então falta ao filme esse ponto de apoio que seria crucial para o seu enredo. Também não há contexto. Fora uma menção do estilhaço de granada que feriu Harris na Guerra da Coréia, nada mais se vê ou é dito sobre o momento histórico e como ele poderia influenciar aquela afluente família de Newport, que é o centro da trama por onde se move Ann.

O tom é o do ”cinema de qualidade”, que fez época com a Miramax (o protótipo, aqui, é o oscarizado O Paciente Inglês). Grandes atrizes (Vanessa Redgrave, Meryl Streep e Glenn Close) contracenando com jovens, temática de prestígio (reavaliação da vida na iminência da morte), fotografia dourada, violinos, uma adaptação literária – enfim, tudo para receber o selo ”artístico” Iso 9002, que o distinguiria de obras puramente comerciais.

No entanto, tantos componentes ”nobres” não bastam para evitar o tom frio do drama. Ele simplesmente não emociona. E nem mesmo consegue extrair interpretações convincentes das boas atrizes em cena. Nenhuma delas atinge aquele momento de graça que obtiveram tantas vezes em outros filmes. A não ser, sejamos justos, perto do final, quando Meryl Streep, no papel de Lila (vivida, na juventude, por sua filha, Mammie Gummer), vai visitar sua amiga moribunda. E, na saída, consola uma das filhas de Ann. Há aí um momento de puro humanismo, de encontro entre humanos que transcende a trivialidade vista em outras. Se você pensar bem, as falas ditas por Meryl nem são tão profundas assim. Mas a atriz tem o timing e a arte de fazê-las soar como se fossem puro Shakespeare. E é isso exatamente o que importa. Mas essa passagem é mais uma exceção que a regra.

Acontece com Ao Entardecer a mesma coisa que ocorre em outros filmes da sua família espiritual. Tratam de grandes temas sem a necessária disposição (ou capacidade) de explorá-los a fundo. Envolvem o todo numa embalagem romântica e vagamente nostálgica. Parecem buscar a emoção do espectador naquilo que ela tem de mais superficial. Algumas lágrimas furtivas que rapidamente são enxugadas e se esquecem. Nada que possa perturbar uma pessoa ou tirá-la da sua zona de segurança sequer por alguns minutos. É um tipo de cinema que nunca se assume como descartável, mas nem por isso ousa se apresentar como radical. Cultiva os bons sentimentos, os personagens positivos e as mensagens edificantes. Tem seu público.

E – deve-se dizer -, apesar de inócuo, Ao Entardecer não é mau filme. Deixa-se ver. Em nenhum momento perde o rumo, ou o sentido do bom comportamento a que se atém o diretor. E assim, não sendo ruim, vê-se e também se esquece com mesma facilidade.

(Caderno 2, 25/7/08)

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