Antes que o Mundo Acabe
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Antes que o Mundo Acabe

Luiz Zanin Oricchio

20 de agosto de 2010 | 17h23

mundo

Antes que o Mundo Acabe, de Anna Luiza Azevedo, faz parte de uma saudável série – aquela que procura retratar o universo da adolescência de maneira respeitosa. Isto é, evitando tratar os teens de forma pejorativa, como se fossem débeis mentais monossilábicos, sem nada na cabeça além de hormônios e clichês. No filme, a adolescência é um momento de passagem, difícil sim, cheio de assimetrias e complicações, mas o que se vê na tela é gente de carne e osso e não caricaturas unidimensionais.

No caso, o filme desdobra-se em uma dificuldade adicional. Se a fase de passagem para a idade adulta já é cheia de tensão, o que dizer quando o pai do garoto é um fotógrafo que deixou a família para se aventurar em países exóticos? A mãe voltou a se casar e, para felicidade geral da família, o fez com um homem de excelente trato, interpretado por Murilo Grossi. Ele é mais do que um padrasto, é um pai que todo mundo gostaria de ter, compreensivo até mesmo com o porre ocasional do enteado.

A história procura colocar em evidência toda a série de problemas que pode acontecer com um garoto que mora com a mãe numa cidade pequena. Como sair dali para uma vida mais ampla? Como se relacionar com a primeira namorada? O que fazer quando seu melhor amigo (e rival) é acusado de roubo?

Na verdade, todo o trajeto do filme será no sentido da aceitação daquele pai que vive longe e que não passa de um desconhecido para o garoto. Alguém que ele vai descobrindo através de cartas e de fotos. E também pela lembrança da mãe e pelas palavras de um amigo do pai, seu colega nos tempos de início da profissão.

A história toda é banhada de um tom moderno, mas nunca modernoso, um típico filme da Casa de Cinema de Porto Alegre, instituição composta por um grupo de cineastas e produtores que pensam de maneira avançada e tentam fazer um cinema que se pode chamar de progressista. Moderno, pra frente, como se dizia, porém sem ser ideológico ou discursivo. Aposta na abertura das relações humanas, mesmo preservando a estrutura básica da família, mas vendo a organização familiar já em nova configuração, com tudo o que isso comporta de maior liberdade de movimentos e também às vezes de ausência de pontos de referência mais fortes. É nesse sentido que a busca do pai ausente vai se dar. Procura de um porto seguro possível, relativizado, como tudo no mundo contemporâneo.

Antes que o Mundo Acabe encontra um equilíbrio interessante entre a necessidade de contar uma história, com seus pontos de tensão, e a de ser muito agradável de assistir. É filmado no interior gaúcho, em tom luminoso, meio pastoril. Lembra, como citação, uma atmosfera próxima da de François Truffaut – se este tivesse filmado seu Jules e Jim com atores adolescentes e não com adultos.

(Caderno 2, 20/8/10)

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