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Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Luiz Zanin Oricchio

06 de junho de 2008 | 14h00

Há alguma semelhança entre Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, de Sidney Lumet, e o mais recente Woody Allen, o Sonho de Cassandra, há pouco lançado por aqui. Semelhança temática, diga-se, porque ambos trabalham no universo familiar e sua dissolução. São filmes ”entre irmãos”, que flertam (e casam) com o crime e assim arrastam-se para a tragédia. Outra semelhança: são obras vigorosas, de diretores maduros e que, em aparência, não ligam a mínima para concessões exigidas pelo público médio. Sabem como é a vida e impregnam seus filmes com esse duro realismo que os anos trazem. Bem, Woody já tem 73 anos. E Lumet, nada menos que 84. Está filmando com todo o vigor. E, com perdão da rima, rigor.

Os dois irmãos de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto são Andy (Philip Seymour Hoffman) e o caçula Hank (Ethan Hawke). Andy é um corretor estressado e ambicioso. Hank é um trapalhão, um estróina sem rumo na vida. Ambos precisam de dinheiro. Andy sabe onde arrumá-lo. Ou acha que sabe. Precisa associar-se ao irmão naquilo que seria um golpe perfeito. Um único, bonito e limpo golpe, que resolveria a vida de ambos. E permitiria a Andy estabelecer-se no paraíso sonhado. Sabe onde fica. Aqui mesmo, no Brasil, no Rio de Janeiro, para ser mais preciso.

Não, não há nada no filme que lembre aquelas antigas produções americanas que davam o Brasil como terra da impunidade, para onde podiam fugir tranqüilos depois de cometerem crimes em seus países civilizados e donos de polícias eficientes. Aqui, o Brasil, o Rio, só têm esse valor de sonho, de paraíso prometido, onde vale a pena viver. São lembranças que Andy traz de umas férias cariocas em companhia da mulher, Gina (Marisa Tomei). Quer repeti-las, ou melhor, eternizá-las, num gozo perene que só as drogas prometem.

Existe algo de tragédia grega nessa história de Lumet, como existia na de Allen. Diz um ditado que se você quiser provocar risadas nos deuses, faça planos para o futuro. E o que acontecerá no filme será a inversão total de expectativas em relação a esse crime perfeito, porque indolor e sem vítimas. Nessa linha na qual os irmãos, Gina e outros personagens vão se enredando, destaca-se outro – o pai, Charles Hanson, vivido pelo grande Albert Finney.

Lumet usa uma montagem interessante para expor sua história. Quebra a linearidade, indo e vindo no tempo, sem por isso confundir o espectador. O roubo é mostrado, e, em seguida, volta-se àquilo que o antecedeu. Depois, avança-se no tempo e vai-se para o que sucede depois. Não se trata de artifício gratuito. Por meio dele, vai se sedimentando aquilo que realmente importa e forma o cerne da questão nesse filme duro – a dissolução de valores pelo poder corrosivo do dinheiro.

(Caderno 2, 6/6/08)

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