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Anna Magnani, a loba de Roma

Luiz Zanin Oricchio

27 Fevereiro 2008 | 09h26

Há uma pequena seqüência de Roma, de Fellini, quando o diretor, ele próprio, bate numa casa e uma senhora atende. Em seguida, ela diz, na cara de Fellini, que não tem confiança nele e manda-o ir dormir. Quem é a mulher? A grande Anna Magnani, em sua penúltima aparição no cinema. O filme é de 1972. No ano seguinte, ela morreria, tendo realizado apenas mais um trabalho, para a televisão. Este ano se comemoram os 100 anos de La Magnani, que encarnou, como nenhuma outra atriz, o espírito da sua cidade, onde ela nasceu e morreu.

Por isso, não existe filme mais associado ao seu nome do que Roma – Cidade Aberta, marco zero do neo-realismo italiano, dirigido por Roberto Rossellini.


Há um dado interessante sobre esse filme. O neo-realismo ficou conhecido como o movimento cinematográfico que levava as produções às ruas e filmava com gente desconhecida, atores não-profissionais. Isso é apenas parcialmente verdade, já que a própria Magnani era uma atriz conhecida quando trabalhou nesse filme do pós-guerra.

Acontece que Anna tinha mesmo a cara do povo e podia interpretar, melhor do que qualquer desconhecida, aquela mulher comum das ruas de Roma, que era pedida por uma produção que falava da resistência aos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Uma das cenas que protagoniza é de antologia, uma das mais conhecidas do cinema italiano, quando tenta acompanhar o carro que leva seu marido, preso pelos alemães, e é abatida pelas costas por um dos nazistas.

Anna tinha mesmo essa cara de povo. Por isso pôde ser, com tanta naturalidade, a protagonista de Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini. O papel é de uma prostituta que precisa largar a profissão para ter a guarda do filho, um garoto problemático. Duvido que alguém já tenha visto esse filme sem se comover com o esforço da mulher para agradar ao filho estróina e consumista. Magnani está inesquecível e, por seu rosto forte, passam as emoções contraditórias e básicas, o medo, a alegria, a raiva, a devoção. Todo o instrumental do sentimento humano está lá, nessa fábula dura e ao mesmo tempo terna de Pasolini sobre a pobreza italiana nos primeiros anos depois da guerra.

Magnani trabalhou com os grandes nomes do cinema italiano e, nessa lista, não poderia faltar o de Luchino Visconti, que a dirigiu em Belíssima. Aqui ela é Madalena Cecconi que tem o sonho de tornar a filha pequena uma estrela do cinema. O filme é de 1951 e faz uma espécie de alerta sobre a nascente indústria do entretenimento e sua voracidade. Há uma dualidade entre o desejo da mãe de ter uma filha famosa e a consciência do custo da celebridade. Enfim, esse culto à fama é tão antigo quanto o cinema, mas há um momento em que a consciência do seu preço fica evidente para os envolvidos. É disso que fala Belíssima.

Anna Magnani trabalhou também com um mito francês como Jean Renoir, em A Carruagem de Ouro, homenagem do diretor à Commedia dell’Arte. A atriz faz parte de uma trupe de comediantes que viaja a uma colônia espanhola nas Américas. Anna, que faz vibrar tão bem os registros dramático e trágico, mostra-se também à vontade para exercitar sua veia cômica. O filme é delicioso, naquela chave da leveza com senso de profundidade, típica de Renoir.

A mostra apresenta alguns outros títulos de menor circulação hoje em dia como Assunta Spina (1948), de Mario Mattoli, L’Onorevole Angelina (1947), de Luigi Zampa, e Abasso la Ricchezza (1946), de Gennaro Righelli. São diretores cujos nomes não ficaram tão marcados na história do cinema mundial quanto os de Rossellini, Visconti e Pasolini. Mas que dirigiram com sabedoria a grande atriz nos papéis em que ela se sentia melhor. Seja como Angelina, que incentiva um saque em tempo de fome, ou como a vendedora de frutas que enriquece no mercado negro, Anna estava sempre à vontade quando encarnava a mulher das ruas da Itália.

Serviço
Anna Magnani, 100 Anos. Hoje, 16 h, Mamma Roma (1962), de Píer Paolo Pasolini; 18 h, Nós, As Mulheres (1953), vários diretores; 20 h, Belíssima (1951), de Luchino Visconti. Centro Cultural São Paulo – Sala Lima Barreto (110 lug.). R. Vergueiro, 1.000, 3383-3402. Grátis (ingressos 1 h antes). Até 2/3

(Caderno 2, 27/2/08)