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Anjos da Revolução

Luiz Zanin Oricchio

15 de junho de 2015 | 09h38

CURITIBA – Aleksey Fedorchenko, premiado em festivais de primeira linha (como Veneza), trabalha com o binômio imagens deslumbrantes e mais registro mágico-realista. Não que ele seja um Gabriel García-Márquez eslavo, mas o fato é que suas histórias são pouco lineares e nem sempre obedecem à lógica causal a que se está habituado. O ponto de partida é mais que estimulante. Vive-se o ano de 1934 e duas populações do norte da Rússia, Khanty e Nenets, não aceitam a nova ordem comunista. Vivem sob o domínio de xamãs e creem numa ordenação mágica da realidade. Não estão preparados para o materialismo dialético. Para submetê-los, parte de Moscou uma trupe de seis artistas metropolitanos – um compositor, um escultor, um diretor de teatro, um arquiteto, um diretor de cinema – todos chefiados por uma bela comissária do povo, Polina.

Narrado em tom de alegoria, Anjos da Revolução relata o encontro (áspero) entre duas culturas não comunicantes. Ilustra a dificuldade de imposição de valores revolucionários que se acreditavam universais a povos de outra mentalidade. E mostra quanto esse encontro de culturas, às vezes celebrado como estimulante de per si, pode também ter de sangrento e brutal. É um estudo radical da irredutibilidade do humano sob certas circunstâncias. Narrado com igual dose de radicalidade, o filme pode ser acusado de tudo, menos de banal. Encanta-se com a obra, com aquilo que ela traz de original, de ousado e belo. Mas deve-se admitir que não é nada fácil de seguir. Não se trata propriamente de um passeio cinematográfico, mas de uma excursão invernal para a qual deve-se armar de determinação.

 

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