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Ângela José, a amiga que se foi

Luiz Zanin Oricchio

15 Março 2007 | 10h26

Acabo de receber um e-mail comunicando a morte de Ângela José, jornalista, crítica de cinema e diretora do Cine Sul, o festival brasileiro mais importante com foco no cinema latino-americano. Foi um choque. Ângela é amiga de longa data. Estivemos juntos agora mesmo em Havana, em dezembro. Eu, como jurado do festival, ela selecionando filmes para o Cine Sul, como fazia todos os anos em companhia do Léo, seu ex-marido. Saímos várias vezes juntos, Ângela e Léo, eu e minha mulher. Vem à mente um último passeio que fizemos à Havana Velha. Saímos a pé do Hotel Nacional, fomos batendo papo pelo Malecón e depois nos deixamos perder por aquela parte mágica da cidade. Ângela era muito bem-humorada, sempre ríamos muito em sua companhia. Foi uma manhã muito agradável, que guardo no coração.

Da Ângela pesquisadora, vale lembrar que lançou uma biografia ensaística sobre Olney São Paulo, cineasta que já começa a desaparecer da memória brasileira, tão frágil, como sabemos. “Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo” resgata a obra de um diretor importante e perseguido durante os anos sombrios da ditadura brasileira, em especial por seu filme Manhã Cinzenta, tido como subversivo. Na época do lançamento do livro, escrevi uma nota a respeito e lembro ter destacado o incomum interesse de Ângela por um cineasta fora do mainstream cult. Uma coisa é escrever sobre Glauber Rocha ou, digamos, Mário Peixoto, nomes badalados, de bom trânsito intelectual. Outra é, literalmente, exumar um artista na prática excluído da história do cinema brasileiro. O livro, entre outros méritos e qualidades, tinha este, o da originalidade. Talvez agora, com a morte de Ângela, o volume mereça ser republicado.

Mas a sua realização maior foi mesmo a criação do Cine Sul, festival criado com dificuldade e que em junho fará sua 14ª edição, no Rio de Janeiro. Só quem já tentou divulgar o cinema latino-americano neste país sabe da dificuldade da tarefa. Hoje existem outras mostras no País dedicadas ao cinema latino-americano, mas o Cine Sul foi pioneiro. Certamente a edição deste ano será realizada em homenagem à sua criadora.

Ângela José tinha apenas 51 anos. Sofreu um derrame cerebral no sábado, morreu na terça e foi enterrada na quarta em Cabo Frio. Que esteja em paz.