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Amor, um paradoxo do Oscar 2013

Luiz Zanin Oricchio

11 de janeiro de 2013 | 08h50

Nem falemos, por óbvio, que Lincoln deve dominar a premiação da Academia em 2013. Com 12 indicações, o épico de Spielberg sobre o pai da pátria norte-americana, preenche bem o vácuo deixado no ano passado, quando o vencedor foi uma produção francesa em preto e branco, O Artista. Neste ano, a América deve recobrar seus direitos num prêmio criado e concebido para celebrar sua indústria, seus valores e seu modo de vida.

Extraordinária, sim, é a presença do franco-austríaco Amor, de Michael Haneke, em cinco categorias – melhor filme, filme estrangeiro, roteiro original, diretor e atriz (Emmanuelle Riva). É já um reconhecimento marcante para um filme que tem tocado muito as pessoas com sua história sobre a velhice, a perda da independência física e psíquica, e a morte. Falado em francês e ambientado em Paris, com dois atores magníficos do cinema dito “de autor” (Riva e Jean-Louis Trintignant), Amor fala de coisas que nem sempre queremos saber, através de uma direção seca e aguda de Haneke (de A Fita Branca), cineasta pouco disposto a concessões.

O curioso é que, dois meses atrás, a revista Cahiers du Cinéma deu matéria de capa a Amor, não para celebrá-lo mas para detratar seu diretor, tachado de “falso humanista”. Através de um raciocínio tortuoso, reprovam a Haneke a maneira como conduz a triste história da decadência da personagem de Riva, assistida pelo marido, vivido por Trintignant. Um grande absurdo, exemplo de análise moral (quando não moralista) que tantas vezes compromete o senso crítico dessa que é uma das mais tradicionais publicações de cinema do mundo. Seria incrível o filme ser reconhecido pela Academia de Hollywood e não pelos Cahiers, uma revista fundada, nos anos 50, pelo grande intelectual católico André Bazin. O paradoxo dos paradoxos.

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