‘Alvorada’ e o crepúsculo do governo Dilma
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‘Alvorada’ e o crepúsculo do governo Dilma

Luiz Zanin Oricchio

27 de maio de 2021 | 12h02

Alvorada, de Lô Politi e Anna Muylaert, chega agora aos cinemas depois de ter passado pelo festival de documentários É Tudo Verdade. Sem fazer jogo de palavras, não vejo outra definição para ele senão a de “filme crepuscular”. Em tom melancólico, registra a intimidade da residência presidencial entre a abertura do processo de impeachment e o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff em 2016.

É um filme de observação. São raras – e breves – as entrevistas com a presidente, ou com outras pessoas. Na maior parte do tempo, as câmeras registram a solidão dos aposentos presidenciais, preenchidos por funcionários e pela (ainda) presidente, que anda de lá para cá, reúne-se com assessores e planeja sua defesa no Senado, última instância a julgar o caso.

A impressão sentida por nós, do lado de fora, confirma-se no lado de dentro. Era uma luta inútil, jogo de cartas marcadas, cujo resultado todos já conheciam de antemão. 

Em raros momentos a presidente fala com as realizadoras. Ela é a primeira a perceber a inexistência de saída. Tudo havia sido armado – e bem armado – para esvaziar qualquer defesa possível. E, no entanto, não renuncia à luta. Por quê? Porque é melhor cair lutando. A derrota com resistência pode deixar uma semente, ao contrário da estéril desistência. Também é este o motivo de permitir uma equipe de cinema coabitando durante quase quatro meses com a intimidade do palácio. Era preciso um documento do ato final. 

Nem tudo pôde ser filmado. Às vezes, Dilma pede para a equipe se retirar, provavelmente quando tinha de discutir com seu entourage temas mais delicados. Em outras, seu incômodo pessoal é evidente. Chama a equipe de “invasiva”. Mas reconhece, também, a importância do registro para conhecimento das gerações futuras.

O filme é hábil na construção de ambientes, de climas, sensações. O vazio e o silêncio fazem contraponto com a trilha sonora, Villa-Lobos em geral. Inevitável pensar, durante esses momentos “vazios”, na confluência da arquitetura de Niemeyer, do projeto de Brasília de JK, das artes brasileiras presentes na decoração – de tudo isso que expressava em determinada época a confiança no destino grandioso de um país novo, livre e inovador. O contraste com o obscurantismo do Brasil de hoje e seu declínio na cena internacional chega a ser constrangedor.

Alguns raros momentos de diálogo são significativos. Dilma cita Milton, Saramago, Guimarães Rosa e Hannah Arendt para falar do Mal. Da “banalidade do mal”, para usar a expressão consagrada por Arendt em seu ensaio-reportagem sobre o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann.

Dilma cita livros clássicos, mas não para ostentar erudição. A gente nota: essas leituras estão muito bem assimiladas e ela mobiliza referências para construir uma reflexão sobre a política e o Mal. Pensa em Eduardo Cunha, por certo. Ou em Michel Temer, talvez. Não sobre o atual ocupante da presidência que, em 2016, era uma mera e improvável hipótese. Talvez ela pense sim em Brilhante Ustra, o torturador, homenageado pelo futuro presidente na sessão da Câmara que abriu o processo de impeachment.

Mas Dilma não acredita no mal. Pelo menos no mal absoluto. “Somos frágeis demais para isso”, pensa. Partindo de quem foi torturada na ditadura e, como presidente, vivia um processo de afastamento com cartas marcadas, é uma afirmação e tanto.

Depois, para falar de racismo, Dilma evoca a escravidão e o racismo estrutural. Diz que este traço brasileiro passa pela prosa genial de Machado de Assis. Cita o livro de Sidney Chalhoub, Machado de Assis Historiador. São comentários de quem leu muito, assimilou, pensou e estabeleceu conexões entre as leituras e o processo histórico. É curioso lembrar que, na construção da narrativa contra Dilma, ela tenha sido caricaturada como confusa, quase disléxica. Ao contrário, revela-se uma pessoa culta, articulada, consciente de si e do seu momento, sem um pingo de autopiedade. Uma mulher muito inteligente, presa a um labirinto histórico montado por uma invulgar confluência de forças conservadoras.

Nesse registro de bastidores ao longo do processo golpista, Alvorada junta-se a outras obras fundamentais como O Processo, de Maria Augusta Ramos, Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e Excelentíssimos, de Douglas Duarte. São títulos que, somados, compõem um painel inquietante do estado das coisas num país preso ao arcaísmo e com um futuro problemático à frente. 

Alvorada é um filme de beleza triste e produz um efeito talvez desolador em espectadores conscientes. Melancolia inevitável para quem se vê obrigado a suportar o torturante processo histórico brasileiro de 2013 para cá, com o acréscimo de uma inesperada pandemia, aqui recebida com negacionismo e irresponsabilidade. 

Alvorada não capta apenas as cenas finais de um poder – é também registro crepuscular de uma democracia sempre definida com condescendência como “jovem” ou “frágil”. Democracia talvez senil sem ter nunca passado pela maturidade. 

 

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