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Alpha Dog: pulsação jovem que flerta com a violência

Luiz Zanin Oricchio

22 Maio 2007 | 08h30

Alpha Dog é a chamada história ‘baseada em fatos reais’. Fatos bem escabrosos, aliás. Um chefete semi-adolescente de tráfico de drogas, chamado Jesse James Hollywood, entra em conflito com outro jovem, porque este lhe devia dinheiro de uma partida de entorpecentes, algo como US$ 1.200. Jesse James resolve então seqüestrar o meio-irmão do devedor para forçá-lo a pagar. Seus amigos capturam o garoto de 15 anos que, a princípio fica assustado, depois passa a conviver gostosamente com seus captores e parte para uma balada em sua companhia. No meio tempo, Jesse James se dá conta da gravidade do delito (consulta seu advogado) e tenta consertar o erro. Como se sabe, quando um torto procura endireitar um malfeito, podem-se esperar as piores conseqüências.

Esse caso criminal ficou famoso nos Estados Unidos e várias pessoas foram detidas por sua causa. O principal acusado, Jesse James, que no filme se chama Johnny Truelove (Emile Hirsch), foi preso anos depois do crime. No filme, foi capturado em Assunção, ao som de Garota de Ipanema, cantada por Bebel Gilberto. Na verdade foi preso em 2005 em Saquarema, no Brasil, daí o recurso alusivo da canção mais popular de Tom Jobim.

Quem não fica bem na fita é um certo tipo de juventude californiana, protagonista múltipla deste filme coral. Alinhados em uma posição limítrofe da criminalidade, parecem empenhados em tempo integral em beber, fazer sexo, drogar-se, ostentar seus longos cabelos loiros (as mocinhas) ou carecas neonazistas e tatuagens espalhadas pelo corpo todo. Ah sim, as tatuagens são unissex, pois as garotas também as adotam.

Tampouco as famílias desses garotos saem muito bem no retrato. São pais instáveis, usuários de drogas eles próprios, com uma relação completamente anômala com a comunidade. Tem-se a impressão de um salve-se quem puder. E essa relação social e familiar caótica aparece nas tomadas de cena cheias de energia, na inquietação visual, na corrida sem sentido, cuja velocidade mimetiza os efeitos da cocaína sobre o cérebro.

Alpha Dog é, talvez, o melhor trabalho de Nick Cassavetes, filho do grande casal John Cassavetes e Gena Rowlands. Ao que parece, em seus filmes anteriores – como De Bem com a Vida (1996), Loucos de Amor (1997), Um Ato de Coragem (2002) – Nick não havia atingido ainda a intensidade conseguida com este Alpha Dog. Há um trabalho de câmera e montagem dos mais interessantes e também, na direção de um elenco muito jovem e, portanto, passível de escorregões. Não, a garotada vai bem, talvez porque a proposta apresentada seja representar um universo que lhes é muito próximo.

A parte adulta, e famosa, do elenco também é ok, como o pai de Johnny, vivido por um Bruce Willis cabeludo, e Sharon Stone, como a mãe do garoto seqüestrado pelos outros jovens.

Nick Cassavetes estuda o comportamento usual em sociedades hierarquizadas. Johnny é o macho alfa (daí o título), que mantém o domínio sobre a matilha. Ele não pode ser ameaçado, ou desafiado por alguém que não paga as dívidas, como acontece com Jake Mazursky (Ben Foster). Se não consegue atingir o faltoso, volta-se contra o irmão deste, Zack (Anton Yelchin). Johnny tem também seu ‘robô’, um fiel e devoto escravo, capaz de fazer o serviço sujo por ele, Frankie (Justin Timberlake). Tudo faz parte da lógica da matilha: a ordem do poder, a divisão das fêmeas, a impossibilidade de ser confrontado.

O mais interessante, na situação, é o comportamento de Zack, o raptado. Como ele vivia às turras em casa, com pais controladores que desejam preservá-lo da companhia e influência do irmão mais velho, o seqüestro lhe parece de início uma bênção. E, de fato, o refém, embarca numa a princípio agradável trip com seus captores, com garotas muito loucas, maconha e cerveja a rodo, uma noitada sem fim. Uma longa noite de loucuras, para evocar aquele belo filme de Mauro Bolognini, no original La Notte Brava.

Talvez não haja, nesta ‘noite’ proposta por Cassavetes, nenhuma epifania como a que existe na de Bolognini, filmada a partir de um roteiro de Pier Paolo Pasolini. Lá havia, no fundo da noite escura, uma iluminação quando aquele pequeno malandro janta como um potentado árabe com o produto do roubo, leva a namorada para casa e atira fora o último trocado que tem no bolso, antes de ir dormir. Aqui não existe mais lugar para qualquer transcendência. São seres sem esperança, sem rumo, apodrecidos na própria anomia. Não há luz no fim do túnel.

(SERVIÇO)
Alpha Dog (EUA/2006, 117 min.) – Drama. Dir. Nick Cassavetes. 16 anos. Em grande circuito. Cotação: Bom