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Almereyda e Vigo: pai anarquista, filho cineasta

Luiz Zanin Oricchio

27 Setembro 2009 | 14h04

O Rimbaud das telas e seu pai anarquista

Ars longa vita brevis. Jean Vigo (1905-1934) é um aparente desmentido do provérbio de Hipócrates. Teve vida breve e deixou obra também pequena – dois curtas-metragens (À Propos de Nice e Taris), um média (Zéro de Conduite) e apenas o longa L”Atalante. Como tamanho não é documento, a densidade dessa “pequena” obra dá razão ao grego – sua arte, embora resumida, é de fato longa.

A julgar pela importância histórica e prestígio de que desfruta na história do cinema, Vigo, que chamam de “o Rimbaud do cinema”, aproveitou muito bem seus parcos 29 anos de vida. Seus filmes foram, ao lado dos do longevo Jean Renoir (1894-1979), os únicos levados em consideração pelos enragés da nouvelle vague quando resolveram demolir todo o cinema francês, de Lumière até então. Descontados excessos de juventude, eles tinham razão. Até hoje, os filmes de Vigo são de fato uma lição de cinema. E foi por isso mesmo que a obra e seu criador se tornaram objetos de estudo de Paulo Emílio Sales Gomes em sua temporada francesa.

Na verdade, a curiosidade sobre Jean Vigo levou Paulo Emílio a pesquisar mais atrás, conduzindo-o à biografia do pai do cineasta, o anarquista Eugène Bonaventure de Vigo, que adotou o nome de Miguel Almereyda assim que decidiu romper com a origem nobre. Desse modo, o trabalho desdobrou-se em dois personagens que, à sua revelia, renderam dois livros, agora reeditados pela Cosac Naify/Edições do Sesc, na caixa que abriga os volumes 4 e 5 da Coleção Paulo Emílio, projeto de relançamento de toda a obra do ensaísta brasileiro. A caixa custa R$ 150 reais e inclui ainda dois DVDs contendo a enxuta obra cinematográfica de Jean Vigo.

O bom dessa edição da Cosac Naify é que ela não é bonita apenas no visual. Quer dizer, também é bonita, em bom papel, capa dura, ilustrada por boas fotos. Mas, além disso, ela é consistente. Os dois volumes vêm acompanhados de aparato crítico considerável. Fortuna crítica, posfácios, bibliografias e índices onomásticos, além das importantes notas de apoio que ajudam o leitor a contextualizar as obras. Essas notas constituem uma pequena enciclopédia de termos e miniperfis de alguns dos personagens citados ao longo do texto. Ajuda indispensável, que esclarece tanto o que foi a Action Française, movimento nacionalista e monarquista surgido na época do caso Dreyfuss, quanto quem foi Mikhail Aleksandrovitch Bakunin, um dos principais teóricos do anarquismo. Mas, ao lado de nomes notórios como os do próprio Bakunin, Kropotkin e Clemenceau, surgem outros, famosos em sua época e depois esquecidos, como o sapateiro e sindicalista Auguste Delalé e o desenhista, jornalista e agitador Aristide Delannoy, ambos importantes para a compreensão de um período muito rico e violento da história europeia.

A obra original teve percurso acidentado, como se diz. Paulo Emílio voltou ao Brasil em 1954 e deixou o manuscrito na França aos cuidados de amigos. O texto foi lido por François Truffaut, então jovem crítico, que registrou sua impressão nestes termos: “Passou por minhas mãos o manuscrito do mais belo livro de cinema que já li”, escreveu nos Cahiers Du Cinéma de julho de 1954. Truffaut exalta a maneira como monsieur Sales Gomes descreve as filmagens de Zéro de Conduite e L”Atalante. Recomenda a publicação, que deveria ser “integral”. E prevê que, no futuro, ninguém conseguiria ajuntar dez linhas de texto sobre Vigo sem citar este livro de autor brasileiro.

Mesmo assim a editora Du Seuil impôs cortes no extenso capítulo inicial, justamente o perfil de Almereyda. Das 140-150 páginas datilografadas em francês restaram cerca de um terço. E assim Jean Vigo foi editado. O livro, escrito entre 1949 e 1952, saiu na França em 1957. Em Londres, em 1972 e, no Brasil, apenas em 1984, pela Paz & Terra. Já Vigo, Vulgo Almereyda, perfil completo do pai do cineasta, saiu aqui em 1991, numa edição conjunta da Edusp, Companhia das Letras e Cinemateca Brasileira. Consagrou-se, desse modo, a separação da obra em dois volumes, feitio preservado agora nesta reedição da Cosac Naify/Sesc (veja quadro nesta pág.).

Pai e filho, dois personagens fascinantes, grandes cada qual à sua maneira. Por qual deles Paulo Emílio teria se interessado primeiro? A pergunta talvez seja sem sentido. Se o brilhante ensaísta de cinema não podia deixar de se seduzir pela figura de Jean Vigo, ao militante comunista, preso na época do Estado Novo, a figura de Almereyda parecia igualmente atraente. A época de Almereyda, em si, já era atrativo suficiente para Paulo Emílio. Almereyda vive o avanço do internacionalismo proletário, engaja-se na causa pacifista e vê tudo desmoronar com a 1ª Grande Guerra (1914-1918). Almereyda morre em 1917, ano da Revolução Russa. Tinha 34 e morreu na prisão, em circunstâncias suspeitas. Havia adotado esse nome porque ele continha a palavra merda em suas sílabas (almereyda: où il y a de la merde). Aproximava-se, também pelo prenome, Miguel, da sonoridade catalã (“onde se praticava o verdadeiro anarquismo”) e expressava, no anagrama, o desprezo pela sociedade burguesa da 3ª República.

Convenhamos, o personagem em si já justificava o interesse. Mas traçar-lhe o perfil também ajudava o estudioso a compreender as circunstâncias em que Jean Vigo havia se formado. Isso era importante. Mais: era fundamental. “Paulo Emílio fazia parte da velha escola historiográfica”, lembra seu biógrafo José Inácio de Melo Souza. “Hoje acham suficiente a análise dos filmes, mesmo porque traçar grandes painéis, como eles faziam, dá um trabalho danado”, diz. Certo, pode dar trabalho, mas o leitor sai recompensado. Basta notar o alargamento de compreensão que salta das páginas desses dois livros, em análises nunca contaminadas por um determinismo mecanicista, ou pelo simplismo da “vida que explica a obra”. Se esta tem a sua autonomia, e deve ser examinada em seus próprios termos, é verdade que incorpora elementos do ambiente e do próprio destino pessoal do autor. “Traços da vida ecoando nos filmes”, como escreve Adílson Inácio Mendes no posfácio de Jean Vigo.

Na relação entre Almereyda e Vigo, a filiação se estabelece. Ao anarquista Almereyda segue-se o filho cineasta, libertário como o pai, mas usando outros meios. Ao evitar os paralelos fáceis entre o militantismo de um e a agressividade de autor do cineasta de À Propos de Nice, Paulo Emílio deixa ao leitor a última palavra e possíveis conclusões. Em sintonia com seus objetos de estudo, faz de seus textos um exercício igualmente libertário, e portanto político.

PERFIL POLÊMICO
José Inácio de Melo Souza, biógrafo do autor (Paulo Emílio no Paraíso, Record, 2002), acha que Almereyda e Vigo deveriam ser editados em um único volume. “Foi uma oportunidade perdida para publicar a obra segundo o projeto inicial de Paulo Emílio “, diz. Melo Souza lembra que o perfil biográfico integral do pai de Vigo deveria dar início ao volume sobre o cineasta, mas foi cortado por imposição da francesa Seuil, primeira editora da obra. “Eles não queriam muito destaque para essa coisa de anarquismo.” Esse aspecto da obra ficou em segundo plano, até mesmo na cultura francesa. Ele cita como exemplo o livro Cinema e Anarquia, da pesquisadora francesa Isabelle Marinone (Azougue Editorial), que não menciona o texto de Paulo Emílio sobre Almereyda.

Já para o organizador da obra, o professor da ECA-USP, Carlos Augusto Calil, secretário de Cultura de São Paulo e ex-aluno de Paulo Emílio, “a questão não se coloca: um livro, publicado em vida do autor, é a sua obra, não importam as intenções originais dele”. Calil diz que Chris Marker determinou o corte e Paulo Emílio o aceitou. “Reescreveu (remontando cinematograficamente) esta primeira parte e assim o livro se tornou conhecido. Não caberia ao organizador restabelecer o projeto inicial, não se volta atrás no tempo.” Calil lembra que esse problema já havia sido enfrentado na primeira edição de Vigo, Vulgo Almereyda, “que ao ser finalmente publicada, ganhou autonomia”.

(Cultura, 27/9/09)