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Almas a preço de ocasião

Luiz Zanin Oricchio

21 de junho de 2012 | 09h47

Marcel tem 67 anos e é vendedor de carros. Não apenas. É o melhor vendedor de carros da empresa. Acumula prêmios de produtividade e é referência para os colegas. Sua técnica é impecável. Marcel vive numa pequena cidade do Quebec, Lac Saint Jean. Além das vendas, suas paixões são a filha e o neto. Marcel, magnificamente interpretado por Gilbert Sicotte, é viúvo e mantém olhar tristonho.

Ele é o personagem principal deste surpreendente O Vendedor, do canadense Sébastien Pilote, sua estreia em longas-metragens. A direção é cool. Pilote é pouco retórico. Utiliza o silêncio dos personagens de forma dramática. Inclui a própria paisagem, quase sempre coberta de neve, na linguagem da narrativa. A neve, os dias curtos, a luminosidade restrita – tudo induz à depressão. O registro fotográfico é frígido, como o clima.

Há um pano de fundo a pontuar o drama. A indústria que é motor econômico da região, começa a emperrar. Isso gera uma crise com demissões. A venda de automóveis também vai sofrer. Mas, como verá o espectador, esse não será o maior problema de Marcel.

Existe uma semelhança de fundo entre O Vendedor e A Morte do Caixeiro Viajante, a peça de Arthur Miller. Escrita em 1949, foi levado às telas e é reencenada desde então em todo o mundo. Agora mesmo há uma versão de sucesso na Broadway. Não por acaso. Miller, pela análise da figura do vendedor, toca o nervo exposto do sistema econômico.

Dito isso, há uma diferença muito grande entre O Willy Loman de Miller, e o Marcel Lévesque de Pilote. Se ambos parecem figuras trágicas, o são de modos diferentes. Mas a estrutura de fundo permanece. Um vendedor é um vendedor. Alguém que faz a mercadoria circular mais rápido. Há uma cena em que o astuto Marcel empurra um carro novo para um desempregado, que é digna de antologia. No entanto, Marcel é mais do que um simples espertalhão; é um ser complexo, dotado de senso moral e escrúpulos. Tudo isso torna a situação mais nuançada e, portanto, ainda mais rica do ponto de vista dramático.

O que permeia a narrativa é o sentimento de desumanização. Da falta de sentido de tudo, que aparece de forma repentina quando um trauma qualquer desperta o sujeito. É claro que a tentação nesse gênero de história é parecer demonstrativo, esculpir personagens sob forma de caricaturas de modo que a tese (a “mensagem”) não se perca no circuito das contradições. Pois são exatamente essas facilidades que Pilote evita. Não mostra qualquer receio de ambivalências, mesmo porque delas somos feitos, embora o cinemão comercial as ignore, contribuindo para a infantilização da plateia. O Vendedor acredita na existência do público adulto. É um ato de fé.

(Caderno 2)

 

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