Alma em Suplício, o Vale Tudo de Michael Curtiz
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Alma em Suplício, o Vale Tudo de Michael Curtiz

Luiz Zanin Oricchio

29 de maio de 2011 | 18h58

Mãe dedicada, filha perversa. Se você conhece esse enredo e pensou na novela Vale Tudo, de 1988, não errou. O que talvez não saiba é que a trama de Gilberto Braga se inspirou num velho filme de Michael Curtiz, Alma em Suplício, que está saindo agora em DVD pela Versátil.

A mater dolorosa, que na novela era interpretada por Regina Duarte, no original é vivida por Joan Crawford – uma ironia, pois Crawford acabou conhecida por seus papeis de mulheres duronas e de poucas amabilidades. Mas aqui ela é apenas a dona de casa Mildred Pierce, título original da obra, que foi refilmada como minissérie e recentemente apresentada pela HBO com Kate Winslet no papel.

Mildred é uma mulher casada com um marido um tanto incapaz para garantir segurança à família. Está desempregado. Logo no começo, ele abandona a esposa e as duas filhas do casal para ir morar com a amante. Mildred fica sozinha com as filhas, a menor delas bastante gentil e a mais velha dando mostras de ambição precoce. Veda é o modelo para Maria de Fátima, a vilã de Vale Tudo encarnada por Glória Pires. A fome de luxo de Veda (Ann Blyth) parece insaciável, e se revela desde cedo. Para sustentar a família, Mildred arruma trabalho como garçonete. Sobe no emprego e logo abre negócio próprio, impulsionada por um advogado fanfarrão que lhe faz a corte, Wally Fay (Jack Carson). A sociedade será feita entre Mildred e um playboy arruinado, Monte Beragon (Zachary Scott), que dispõe do imóvel ideal para abrigar um restaurante.

Toda essa história, e muita coisa mais que aqui não foi dita, ficamos sabendo pelo relato de Mildred numa delegacia de polícia, depois que um crime foi cometido em sua casa. A trama, portanto, será desenrolada em flashback, por uma mulher ferida e sabedora de que perdeu tudo e até mesmo seu mais ambicioso projeto de vida, ligado à felicidade da filha, Veda.

Alma em Suplício é um belo exemplar de filme noir mesclado com melodrama. A dureza do noir é suavizada pela glicemia melodramática, não apenas no conteúdo, mas na maneira como a música é utilizada de maneira intensa, para causar uma experiência emotiva maior conforme o propósito do gênero. Aos diálogos afiados do noir, respondem os estados de alma do melô, gerando uma terceira forma, híbrida dos dois gêneros.

Esse tempero não anula a força desse filme, considerado um dos mais incisivos da carreira de Michael Curtiz. Mildred representa a ambiguidade moral do pós-guerra, em seu papel de self made woman que, no entanto, jamais consegue esconder a origem humilde. Essas convenções de classe, de uma sociedade que se modifica muito entre a crise dos anos 1930 e o final da 2ª Guerra Mundial, são do tipo que dilaceram as pessoas. Querendo subir a qualquer preço, tropeçam nas próprias pernas e se destroem.  Há, também, esse fundo moral (e mesmo moralista), numa história ambientada na aurora da sociedade de consumo triunfante, a nossa civilização,  argentária, na qual se afirma que o dinheiro não traz a felicidade.

Para além dessas considerações, fica o filme de bela feitura, com destaque para a ótima fotografia em preto e branco de Ernest Haller. É engraçado também notar que, apesar do seu talento, Joan Crawford não consegue se adaptar muito bem ao papel da mãe sofredora. É intensa demais para isso, e não esconde essa sua força interna. Por isso se ajustaria tão bem a papeis posteriores ao encarnar personagens mais afins à sua personalidade, como a valentona Vienna de Johnny Guittar, o clássico de Nicholas Ray. Alma em Suplício foi o filme que relançou a carreira de Joan Crawford e rendeu-lhe o Oscar de melhor atriz em 1946.

Michael Curtiz (1888-1962)

Diretor húngaro, cujo nome original era Mihaly Kertesz,  mudou-se para os Estados Unidos e ficou conhecido pelos filmes de aventura estrelados por Errol Flynn. Sua obra de referência é Casablanca, o cult ambientado na 2ª Guerra Mundial com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, os dois amantes separados pelo conflito europeu. Curtiz era considerado bom artesão, e pouco mais que isso, mas sabia aplicar as lições visuais do expressionismo alemão em suas obras como se nota em Alma em Suplício.

James M. Cain (1892-1977).

Considerado um dos grandes autores do gênero policial, sua novela mais famosa, O Destino Bate à Sua Porta (aqui editado pela Cia das Letras), foi várias vezes adaptada para o cinema. Numa delas pelo italiano Luchino Visconti com o título de Obsessão, em 1946, numa versão não autorizada pelo autor e que passa por um dos marcos iniciais do neorrealismo italiano. Foi filmada também por Tay Garnett em 1946 com Lana Turner e John Garfield nos papeis principais. Papeis que seriam de Jack Nicholson e Jessica Lange na versão de 1981 dirigida por Bob Rafelson.

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