Alice: o sonho como prática de liberdade
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Alice: o sonho como prática de liberdade

Luiz Zanin Oricchio

22 de abril de 2010 | 09h46

alice

 

Quem quiser cobrar fidelidade na adaptação que Tim Burton faz das obras de Lewis Carrol, vai se sentir tão inadequado quanto a heroína quando cai na toca do coelho e encontra um mundo avesso à ordem comum. Burton, como se poderia prever, deixa que essa antiga e estranha obra, em tese dirigida a crianças, reverbere em si e se deixe ler segundo a poderosa imaginação visual que lhe é própria. Burton, na verdade, não adapta; inspira-se na obra e a transfigura.

 

Nem por isso se pode dizer que este seja um filme perfeito. Embora pontuado de um grande número de momentos felizes, parece às vezes escravizado ao 3D, esse mantra atual da indústria pesada de Hollywood. Talvez o cinema em três dimensões de fato esteja salvando a indústria de seus maiores concorrentes, como a TV a cabo, o DVD, a pirataria. A contrapartida é que os efeitos de três dimensões às vezes são usados de maneira em aparência gratuita, para constar e impressionar. É assim com uma técnica recém-descoberta da qual se abusa um pouco. Com mais tempo vira rotina e se estabiliza.

O mais importante é que na Alice, segundo Tim Burton, cada sequência seja pensada como um show visual que provoca o alumbramento do espectador, por refratário que seja aos efeitos, às vezes meio grandiloquentes. Nesse mundo feérico, o fundamental da inspiração de Carrol é preservado, ou seja, o contato da personagem com uma lógica que não é a da vida desperta. Digamos assim: uma outra lógica, onírica, intuída pelo escritor uns 40 anos antes que Freud começasse a redigir sua obra fundamental – A Interpretação dos Sonhos (publicada em 1899).

Como em Freud, o sonho de Alice tem lá a sua lógica interna, ainda que conviva com uma rainha que só ordena execuções a qualquer pretexto, um gato transformado em puro sorriso e o melancólico Chapeleiro Maluco (Johnny Depp). A imersão no sonho é libertária e Tim Burton é uma alma livre, embora angustiada. Sabe que não apenas grilhões, mas lógicas convencionais podem aprisionar. Sonhar liberta.

 

(Caderno 2, 22/4/10)

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