Algumas notas de fim de ano
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Algumas notas de fim de ano

Livros, filmes, séries e a preparação para um ano que promete ser de muita luta, trabalho e, por que não?, do uso da sutileza como forma de enfrentar a brutalidade

Luiz Zanin Oricchio

25 de dezembro de 2018 | 21h01

Il Divo, filme de Paolo Sorrentino sobre Giulio Andreotti, com Toni Servillo

 

 

 

 

 

 

 

Depois de um micro recesso de Natal, volto à ativa com algumas notas que poderão (e deverão) ser desenvolvidas depois.

1) Lazzaro Felice, na Netflix. Uma fábula moral muito superior à média do que é lançado nos cinemas. A família de Lazzaro (Adriano Tardiolo) e outras famílias vivem em regime de servidão extemporâneo sob o jugo de uma “rainha do tabaco”. O filme, dirigido por Alice Rohrwacher, dá saltos no tempo e desvela uma Europa assimétrica, na qual o desenvolvimento convive com intolerância e a super exploração do trabalho.

2) A Balada de Buster Scruggs, na Netflix. Filme dos irmãos Coen com as características dos diretores preservadas. Nessa espécie de western terminal, as histórias (são seis, ao todo) vão do sarcasmo ao tom cínico, culminando com uma reflexão sobre a finitude humana. Muito bom.

3) A Amiga Genial, na HBO. Minissérie de oito capítulos, adaptada do primeiro volume da Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante. Como sabem os milhões de leitores da Ferrante mundo afora, trata-se da história da amizade entre Elena Greco e Rafaella Cerullo, dita Lila, da infância à velhice. Esta primeira parte, dirigida por Saverio Costanzo, adapta o primeiro volume, A Amiga Genial. O essencial da obra está lá, em outra linguagem, mostrando a amizade das meninas num subúrbio pobre de Nápoles, logo após a Segunda Guerra – elas nascem em 1944. A amizade é feita de cumplicidade, mas também de rivalidade. A estratégia das garotas, ao longo da vida, será sobreviver e sobressair em uma sociedade hiper machista. É uma vitória (se é que se pode usar este termo) da inteligência e da cultura sobre a força bruta. A escolha das atrizes foi muito boa, a ambiência é perfeita e o respeito ao idioma, fundamental – fala-se em dialeto napolitano, o que exige legendagem na própria Itália. Algumas vezes as minisséries mostram um respeito pelo espectador que não encontramos nos lançamentos de cinema. É tema para refletir num momento em que se discute se o streaming vai liquidar com a exibição nas salas ou se ambas modalidades podem conviver.

4) Li, com atraso (mas antes tarde do que nunca), o livro reportagem Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais. O volume (400 e poucas páginas) estava esperando vez na estante dos não-lidos, mas furou a fila quando soube que ia ser filmado por Olivier Assayas. Como tenho grande admiração tanto por Assayas (Carlos, sobre Carlos, o Chacal, é notável) quanto por Morais (Chatô é uma das grandes biografias nacionais) não tenho dúvidas de que sairá um filmaço. O livro é ótimo. Fala de agentes cubanos infiltrados entre os “contras” em Miami para prevenir atos de terrorismo em Cuba. Você começa a ler e está perdido: não consegue mais parar.

5) Estou ainda lendo a nova edição de O Autor no Cinema, texto de Jean-Claude Bernardet muito discutido nos anos 1980. Em síntese, ele “problematiza” (como se diz hoje) a Política dos Autores, estabelecida pelos “jovens turcos” da nouvelle vague, e dogma de parte da crítica cinematográfica atual. A novidade desta nova edição é a intervenção no volume dos textos de Francis Vogner dos Reis. Jean-Claude, como de hábito, não mexe em seus escritos quando estes são republicados. Francis estabelece uma discussão interna com Bernardet e este debate injeta nova vida ao livro. Ainda estou no meio, mas parece bastante estimulante o diálogo entre o pensador consagrado e o jovem crítico.

6) Este é o tempo das retrospectivas e já começo a preparar a de cinema, meu campo de atuação principal. Mas impossível não pensar em outras retrospectivas em ano tão especial. Na minha visão, desde o fim da ditadura (1985), o país não era confrontado de forma tão contundente consigo mesmo. Ninguém sabe direito o que nos espera, pois esta é a primeira vez que um governo de extrema-direita chega ao poder pelo voto popular. Para quem tem ideias democráticas, é progressista e defensor do Estado laico e de Direito, trata-se de um desafio e tanto, a se prolongar pelos próximos anos. O jogo político embruteceu-se e a própria sociedade tornou-se mais tosca ao longo do processo que elegeu o capitão reformado. Hoje li uma ótima reportagem do El Pais sobre a perplexidade dos intelectuais italianos diante da situação política na Itália, também indigesta. Há, no começo, a citação de uma frase de Giulio Andreotti. O personagem não é nada exemplar, mas tinha sobre o jogo do poder a visão aguda de um Maquiavel contemporâneo. Perguntaram o que achava da transição democrática na Espanha e ele resumiu em duas palavras: “Manca finezza”.

Falta sutileza.

7) É isso,  acho. Talvez caiba a nós combater o bom combate, com coragem, inteligência e alegria. E, claro, com fineza. Mesmo que tratemos com brutos.