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Algumas lições da vitória *

Luiz Zanin Oricchio

02 de julho de 2013 | 12h56

O Brasil, se sabe, vive entre a euforia e a depressão. Ou somos os melhores do mundo ou não valemos nada. Com a conquista da Copa das Confederações, vencendo os espanhóis e os colocando na roda, a tentação da euforia torna-se maior ainda. Calma. Vamos comemorar. E depois encontrar um ponto de equilíbrio, que permita avançar.

Para tanto, seria muito bom livrar-se de certas mistificações em voga, que alinhavo em seguida:

1) O jogo do Barcelona, transportado à seleção espanhola, é o novo modelo absoluto do futebol mundial. No entanto, esse estilo tique-taque, chato à beça, diga-se de passagem, pode ser anulado. E anulado com direito a goleada, como aconteceu com o Bayern de Munique contra o Barcelona e no domingo com os 3 a 0 da seleção brasileira na espanhola. Saiu barato, todo mundo viu. Esse jeito de jogar acabou? Nada disso. O estilo da Espanha serve para ela. É um entre outros possíveis, e nada mais.

2) Jogador brasileiro tem de ir para a Europa se aperfeiçoar. Impressionante como o jogo de Neymar evoluiu depois que foi para o Barcelona, não é? (Aliás, pelo que se viu em campo, saiu de graça para o clube catalão). E o Paulinho está jogando o fino, só com as ofertas dos europeus. Vamos deixar de ser ridículos. Jogador bom evolui aqui ou lá. Não existe nenhum motivo para achar que só na Europa ele vai progredir, a não ser a nossa ancestral “vira-latice” mental. Jogador brasileiro sai para ficar rico e não por outro motivo. O resto é conversa mole para enganar trouxa. Ponto, parágrafo.

3) O futebol moderno não comporta mais centroavante de ofício. Certo. E o Fred? Não está na hora de a gente parar com esse tipo de pensamento único? Essa limitação de achar que as coisas só podem ser de um jeito ou de outro? Jogar sem centroavante pode ser uma boa opção de jogo. Jogar com centroavante pode ser a alternativa, tão válida como a primeira. Não são excludentes. Pode-se ganhar e perder jogando de uma ou outra forma. E, claro, tudo depende do centroavante que se tem. Quem tem um atacante como o Fred pode se dar ao luxo de deixá-lo fora?

4) Muita gente afirmava que Luis Felipe Scolari era técnico superado. Por quê? Por não fazer seus times jogarem como os sabichões acham certo? Com seu estilo motivador, em um mês Felipão montou uma seleção vencedora. Hoje é mais fácil o papa Francisco perder seu emprego que Scolari o dele.

5) A seleção não tem mais ligação com o povo brasileiro. Sim, a seleção andava distante, só jogava no exterior e convocava jogadores de fora do Brasil. Tornara-se estranha a nós. Bastou que reencontrasse um futebol convincente e entusiástico, que assumisse de novo seu papel de representante do País (sim, com direito a hino cantado e tudo mais) para que a indiferença da torcida fosse quebrada. O brasileiro é um ciclotímico, propenso a alterações de humor. Gosta de se autodepreciar e achar que o Brasil não vale nada, mas também adora se orgulhar do País e de si mesmo. Há que entendê-lo como ser contraditório que é. A seleção retomou nesta Copa das Confederações aquilo que havia vendido, irresponsavelmente, por 30 dinheiros, a obrigação de ser representante em campo da nação brasileira. “Pátria de chuteiras”, como resumia o velho e sempre atual Nelson Rodrigues.

De resto, acho que o saldo da Copa das Confederações foi amplamente positivo. Se houve problemas organizacionais, há tempo de corrigi-los para a Copa do Mundo em 2014. Ainda que o único lucro fosse esse resgate da seleção pela torcida, a Copa já teria sido positiva.

Há mais. Seria irresponsável dizer que chegaremos à Copa do Mundo como favoritos. Mas já existe um time, jogando com um padrão conhecido, e que passou a ser respeitado pelos adversários. Embora Felipão não tenha fechado a porta a mudanças (nem poderia fazê-lo), esse time já pode ser escalado pela torcida. Do goleiro ao ponta-esquerda, como se dizia antigamente.

* Publicado originalmente no Esportes do Estadão

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