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Alemanha multirracial em Soul Kitchen

Luiz Zanin Oricchio

22 de março de 2010 | 23h51

Soul Kitchen foi muito aplaudido quando concorreu no Festival de Veneza em setembro do ano passado. Muita gente estranhou que Fatih Akin, alemão de origem turca, e autor de filmes como Buraco na Parede e Atravessando a Ponte – O Som de Istambul, viesse a um dos principais festivais de cinema do mundo com uma comédia. Mas esse estranhamento talvez tenha sido responsável pela recepção tão boa. Que acabou recompensada, afinal, pois Akin faturou o Prêmio Especial do Júri, um dos mais importantes do festival italiano.

Explicam-se essas reações – além de o filme ser realmente muito bom, ele significou uma espécie de refrigério no ambiente de um festival que, como quase todos os seus congêneres, aposta fundo em obras de temática social. Quer dizer, filmes que falam mais das mazelas da existência que de suas alegrias e amenidades. Pois bem, Akin conseguiu reunir duas vertentes da experiência social e expressá-las através de uma comédia muito engraçada. Fala de culinária e da sua Alemanha multirracial (e muito conflitada), ao mesmo tempo em que diverte o espectador.

Essa Alemanha pouco ariana e multicultural passa pelo restaurante do rapaz de origem grega Zinos, um tipo para lá de gauche. A casa é frequentada pela boemia da cidade, mas se o ambiente é descolado, o serviço não parece lá essas coisas. E a cozinha poderia rivalizar com a do Encouraçado Potemkin, que gerou uma rebelião na Rússia czarista e fez a vida de um certo Sergei Eisenstein, que se aproveitou do tema e ficou famoso. Tudo isso lá acontece, até que chega um cozinheiro muito sofisticado, que muda o cardápio para pasmo de uma clientela embrutecida por anos de mau tratamento. Além disso, Zinos tem outros problemas – deslocou a coluna e passa mancando e curvado a maior parte do filme; precisa ajudar um irmão recém-saído da penitenciária e sua namorada acabou de se mudar para Xangai, que não fica exatamente na esquina.

Soul Kitchen (o nome do restaurante) trabalha muito na chave da comédia, mas não em seu gênero mais rasgado e explícito. Não tem nada de intelectual, pelo menos não no sentido pior do termo, o de apelar para o hermetismo. O filme é aquilo que está na tela. Suas implicações estão visíveis a todos. Por exemplo, o mal disfarçado racismo da sociedade alemã entra como ingrediente natural nesse imbróglio entre imigrantes nem sempre legais. Há uma elite ariana que não suporta a presença de outras culturas e etnias que “mancham” a sua sociedade pura. Mesma sociedade, aliás, que atrai mão de obra estrangeira sempre que dela necessita para suprir o que não encontra em casa. Enfim, são contradições de um país que se mistura e altera sua natureza, como quase todos neste mundo cada vez mais interligado.

Essa nova realidade social da Alemanha explode em uma cidade grande como Hamburgo, onde se passa a história de Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos) e seus amigos. Uma fábula feliz, mas sem dúvida muito consciente de suas arestas e inquietações, permitindo vários níveis de leitura, o que, em si, é sempre bom para o filme. Pode ser visto ora como uma ótima e simples comédia, ora como estudo de crítica social da sociedade alemã contemporânea. Evidentemente, esse tipo de divisão é apenas didático e cabe a cada espectador aproveitar a parte que mais lhe interessa. Se for esperto, que aproveita a ambas. Afinal, quem acha que não se pode falar de coisas sérias em uma comédia é porque nunca viu um filme de Billy Wilder, ou algumas das melhores peças de Aristófanes, Molière e Shakespeare. Rir é bom. Pensar e rir é ótimo.

(Caderno 2, 20/3/10)