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Além da Liberdade

Luiz Zanin Oricchio

29 Julho 2012 | 13h12

A história da ativista birmanesa Aung San Suu Kyi é exemplar. Filha de um herói do país e casada com um britânico, ela volta para a Birmânia para assistir à morte da mãe. Lá, começa a tomar parte na resistência à ditadura militar e torna-se uma virtual candidata a presidente, caso a democracia seja algum dia alcançada. Como os militares não parecem dispostos a ceder tão facilmente o poder aos civis – e menos ainda a uma mulher – ela é condenada à prisão domiciliar por 15 anos. Entrega sua vida à causa. Separa-se da família, que continua a morar na Grã-Bretanha, e é contemplada com o Prêmio Nobel da Paz em 1991. É uma heroína da resistência pacífica, baseada nas ideias de Mahatma Gandhi, a quem admira como a nenhum outro líder do mundo.

Essa vida é contada em Além da Liberdade pelo diretor Luc Besson, um francês inimigo dos Cahiers du Cinéma e fã de Hollywood, conhecido por seus filmes de ação como O Quinto Elemento. Quem interpreta Aung San é Michele Yeoh, atriz malaia de O Tigre e o Dragão. É o que o filme tem de melhor. Sóbria, serena e intensa, Michele confere à personagem a dignidade que ela merece. Dignidade de quem enfrenta a força bruta sem recorrer às mesmas armas. Aliás, sem recorrer a armas de qualquer espécie, a não ser a inabalável convicção de que ideias certas um dia acabarão por se impor, desde que sejamos corajosos e perseverantes em sua defesa. Gente assim deve ser admirada. É o que mais falta neste mundo violento, imediatista e superficial.

Nesse sentido, Besson presta um serviço ao tornar mais conhecida a trajetória de uma figura do bem. Ainda mais num tempo de tolo descrédito em relação à política. Tolo, porque, como se sabe, as questões políticas (das quais ninguém escapa, esteja ou não consciente disso) só podem ser resolvidas politicamente. Ou seja, dentro do mesmo âmbito em que são propostas. Ninguém faz política pregando contra a extinção da baleia ou do mico-leão. São coisas distintas.

Nesse particular, na confusão de esferas, é que o filme começa a derrapar. Besson não se contenta em discutir as bases reais da questão histórica e precisa tomar a direção de um drama romântico, talvez para comover seu público. Lembremos, ele é homem de Hollywood, nascido por acaso em Paris e, portanto, acredita no reforço emocional como alicerce da bilheteria.

Dessa forma, o centro gravitacional do filme oscila e desloca-se da tragédia política birmanesa para o drama pessoal de Aung Suu, separada do marido inglês, Michael Aris (David Thewlis). A separação é real, cruel, pungente. Não precisaria, por isso, receber o reforço de música melosa e fotografia alambicada que, em vez de reforçarem a emoção, fazem o espectador colocar um pé atrás, como se estivesse sendo chantageado.

Transformar os militares em caricaturas do mal também não ajuda a entender a luta política de Aung San. Pelo contrário. Não é que gente má ou truculenta não exista. Estão aí os ditadores de todos os matizes do leque político a servir de exemplo. A questão é que, em geral, mesmo essa gente tem de se valer de astúcia, ao lado da violência, para se manter no poder. Têm de fazer alianças, concessões, idas e vindas para se segurar no topo. Essa posição de poder raramente se deve apenas à força bruta – senão, como diz o ditado, o elefante seria o dono do circo. Mas sutilezas desse tipo não têm vez no filme de Besson que, por isso, acaba esvaziado em seu significado.

Sabe o que falta a esse tipo de cinema? Falta confiar na inteligência do espectador.

(Caderno 2)

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