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Alegrias e traumas *

Luiz Zanin Oricchio

10 Julho 2012 | 10h39

Houve uma quase coincidência de datas entre a primeira conquista da Libertadores pelo Corinthians e os 30 anos de uma derrota histórica da seleção brasileira. Dia 4 de julho de 2012 o Corinthians ganhava do Boca Juniors no Pacaembu e levantava a taça continental pela primeira vez. Trinta anos antes, no dia 5 de julho de 1982, o Brasil perdia para Itália por 3 a 2 e era desclassificado da Copa do Mundo da Espanha.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Mais do que se pensa. O Corinthians, em sua conquista, tornou vitoriosa uma concepção de jogo pragmática, de resultado, que não encanta mas resolve. Trinta anos antes, com a derrota da exuberante seleção de Júnior, Falcão, Cerezo, Zico, Sócrates e Éder, abria-se uma discussão que ainda não terminou, entre o futebol que encanta, mas não vence, e o futebol de resultado, sem graça, mas que acaba por se impor.

A discussão permanece porque, para a nossa geração, a derrota do Brasil em 1982 teve o peso simbólico da perda da Copa de 1950 para a geração anterior. Cada qual com sua tragédia. Entre as mil interpretações para a derrota de 1950, ficou uma, como a versão mais fidedigna: o excesso de confiança (a síndrome do já ganhou) aliado à falta de raça. Os brasileiros teriam tremido diante da combatividade de Obdulio Varela e seus companheiros da seleção uruguaia. Da derrota de 1982 ficou a impressão inicial de pura fatalidade. E, para outra facção, a de que futebol bonitinho já era: num tempo de supremacia física e tática rígida, é preciso ser pragmático se quisermos chegar a algum lugar.

As duas derrotas deixaram os brasileiros pasmos. Paulo Perdigão disse que, após o Maracanazzo de 1950, deixara de crer em Deus. Nós, os de Sarriá, em 1982, perdemos a fé no equilíbrio das estrelas e na ordem do universo. Ficamos órfãos, nus, na chuva.

Vivemos essas décadas sob pressão psicológica: a de que o futebol arte seria algo do passado, romântico e, no limite, irresponsável. Algo como o futebol de exibição, de focas amestradas, malabaristas da bola, mas que nada mais conseguem diante da solidez de outras escolas. Nesse ínterim, ganhamos duas Copas jogando de modo prático, com momentos esparsos de brilho, em 1994 e 2002.

Daí se entende que essa geração traumatizada por 1982 se sinta gratificada quando vê ressurgir o futebol arte em sua forma vencedora – por exemplo, no Santos de 2002 e 2010, e, em especial, no Barcelona de Xavi, Iniesta e Messi. Esses times seriam provas empíricas de que a beleza vence. Ou que também pode vencer. Mas o que tivemos este ano foi nova reversão de expectativas. O Santos, apesar de ter mudado seu estilo de jogo, era ainda o time da moda no Brasil. Perdeu inapelavelmente do Corinthians nas semifinais da Libertadores. O Barcelona, o modelo de futebol para o mundo, foi desclassificado pelo Chelsea. Corinthians e Chelsea, dois times aparentados, como o são Santos e Barcelona, disputarão o Campeonato Mundial de clubes no Japão.

É o futebol de resultado dando as cartas? Ou aprenderemos de vez que existe mais de uma maneira de vencer, e que algumas são apenas mais belas do que outras?

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão