Alegria e tristeza no cinema brasileiro
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Alegria e tristeza no cinema brasileiro

A reabertura da Cinemateca Brasileira, fechada havia dois anos, e a morte prematura do cineasta Breno Silveira

Luiz Zanin Oricchio

16 de maio de 2022 | 12h50

Sessão ao ar livre na Cinemateca Brasileira/Foto de Maria do Rosário Caetano

Um fim de semana de emoções contraditórias para o cinema brasileiro. Alegria pela reabertura da Cinemateca Brasileira, fechada havia dois anos. Tristeza pela morte prematura do cineasta Breno Silveira, aos 58 anos. 

Breno teve Covid, curou-se e havia retomado o trabalho. Estava rodando (ou gravando) seu novo filme quando um enfarte fulminante o levou. Não sabemos se o ataque cardíaco é sequela da Covid, mas, dizem os médicos, é uma possibilidade. 

É uma perda irreparável, pois era um dos raros profissionais capazes de fazer filmes populares com qualidade. Essa perda soma-se à de Paulo Gustavo, este levado diretamente pela Covid. Eram cineastas capazes de levar milhões de espectadores ao cinema, sem ofender a inteligência alheia, casos raros entre nós. Vão fazer muita falta. 

O lado alegre foi a reabertura da Cinemateca Brasileira. Estive lá por dois dias seguidos. Na quinta-feira houve a cerimônia para convidados, um coquetel seguido da projeção de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, no telão ao ar livre (frio danado). 

Uma boa parte da turma do cinema estava lá. Revi vários amigos, tomamos uns tragos, falamos da esperança de novos tempos sinalizados por aquela reabertura. Afinal, a Cinemateca esteve fechada por dois anos devido ao descaso do governo, notório inimigo de toda forma de cultura que não seja armamentista. Nesse período, a Cinemateca, não em sua sede, mas em anexos, sofreu uma inundação e um incêndio. Materiais e documentos preciosos, ligados à história do audiovisual brasileiro, foram perdidos. A memória se vai, sob o olhar indiferente de quem deveria zelar por ela. 

Walter Salles me disse lá uma coisa interessante: “Eis aqui uma comemoração que não desejo que se repita jamais, pois é a reabertura de uma instituição que jamais deveria ter sido fechada”. Exato. Mas, como estamos em busca de um pouco de luz e de esperança, comemoramos. Talvez em outubro comecemos a colocar um pezinho fora dessa idade das trevas. O presidente do Conselho, Carlos Augusto Calil, falou em “moderado otimismo”. Na draga em que estamos, já é alguma coisa. Muita coisa, na verdade. 

No dia seguinte, no mesmo telão ao ar livre, a Cinemateca apresentou uma obra inacabada de José Mojica Marins, A Praga, restaurada e completada por Eugênio Puppo e equipe. Um trabalho de arqueólogos das imagens, reapresentando ao público a figura emblemática do Zé do Caixão. Figura que, como se sabe, atravessa gerações e é querido pela galera jovem. Esta se fez presente na sessão promovida pela Cinemateca. 

A outra coisa boa é que as duas salas internas da Cinemateca, que levavam a marca dos patrocinadores, foram rebatizadas. Como esses antigos patrocinadores, empresas estatais, abdicaram de suas obrigações para com a cultura nacional, agora as salas passaram a se chamar Oscarito e Grande Otelo. Uma boa sacada. A dupla famosa das chanchadas, que fez rir gerações de brasileiros, é uma marca permanente do cinema brasileiro. A entrada das duas salas são agora emolduradas por retratos gigantes dos dois atores. Muita gente tirou selfie junto a eles. Seguem vivos em nosso imaginário. 

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