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Alegria do futebol

Luiz Zanin Oricchio

03 de março de 2009 | 08h47

Uma pessoa querida pediu para que eu escrevesse sobre a alegria no futebol. Antes de começar a coluna, fui ver o que Ugo Giorgetti, o “Boleiro” de domingo, havia escrito e, para minha surpresa, não é que ele tinha tirado o pão da minha boca? Alegrias e tristezas do futebol eram seu tema. Alegria: a sobrevivência, ainda que precária, da várzea, símbolo do amadorismo, do futebol jogado por si mesmo, pelo simples prazer. A tristeza? Todo auê em torno de Ronaldo em Presidente Prudente, os fãs em histeria, não em busca do extraordinário jogador que ele já foi, mas da celebridade. Poderia ser um cantor de rock, um astro pop, um ator de novela e daria na mesma, constata Ugo.

E é isso mesmo. Pelo menos para quem cultua o futebol como esporte e arte, talvez como expressão de uma cultura, e o coloca em padrões muito acima dos interesses mercantis ou da insensata badalação das estrelas, tudo isso parece meio ridículo, meio frescura. Por isso, o amadorismo passa a ser uma espécie de último refúgio do aficionado. Digamos assim: em vez da Copa dos Campeões, o Desafio ao Galo. Mas agora fico sabendo que o tradicional Desafio ao Galo já não existe mais. Então estaria tudo perdido? Não estou de acordo.

Porque sim, mesmo com tudo tendendo à chatice, ao politicamente correto, à supremacia do poder econômico, ainda existe alegria, e muita, no futebol. Mesmo no futebol profissional. A própria pessoa que me pediu para escrever sobre o assunto dá o exemplo: alegria é ver Keirrison jogar. E é mesmo. O garoto é a própria fome de bola, a vontade de estar em campo como se ainda brincasse com amigos de rua. Aquele contato às vezes até meio irresponsável (no bom sentido) com a bola. Algo que faz lembrar, embora os estilos sejam muito diferentes, de Robinho, quando este ainda era um garoto e infernizava as defesas com dribles inesperados. A alegria da força jovem. Esse poder regenerador que tem o futebol, em especial o nosso, em que ainda surgem talentos, apesar de tudo. Hoje esses jovens brilham uma, duas temporadas, e somem no buraco negro dos euros. Mas encantam enquanto passam, como cometas. Manda a sabedoria que aproveitemos a alegria enquanto dura. Porque, como dizem os boleiros de verdade, o futuro a Deus pertence.

Não é apenas curtindo os jogadores muito jovens que podemos reencontrar essa alegria do futebol. Em meio ao mundo sisudo dos “profissionais”, do futebol de terno e gravata, burocratizado e chato, ainda se pode garimpar um pouco de vida. Por isso, sempre recomendo a amigos entediados que vejam de vez em quando uma partida no estádio. Sim, senhor, são péssimos, e muita gente só tem olhos para o que neles falta: assentos adequados, papel nos banheiros, segurança, estacionamento ao lado, etc. Suspiram pelos maravilhosos estádios do “Primeiro Mundo”, nos quais tudo é limpo, com lojas maravilhosas, lanchonetes de luxo, lugares demarcados e tudo o mais. Certo: respeito pelo consumidor é fundamental, etc.

Mas enquanto tudo isso não chega, vou me divertindo com o que encontro por aqui. Gosto de chegar ao campo com antecedência, beliscar um sanduíche de pernil na rua (embora meu médico tenha me feito advertências), beber uma cerveja nos botecos das imediações, sentir o calor da torcida, aquele clima até meio tosco e romântico, que cerca o futebol desde que ele foi inventado e resiste a ser de todo esterilizado pela força da grana. São sobrevivências, inscritas na essência mesma desse jogo fantástico. Já que os ídolos passam rápido, que pelo menos permaneça esse doce aroma do amadorismo e mantenha vivo o nosso gosto pelo futebol.

(Coluna Boleiros, 3/3/09)

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