Alegorias do Subdesenvolvimento *
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Alegorias do Subdesenvolvimento *

Luiz Zanin Oricchio

21 de janeiro de 2013 | 23h44

Cena de Terra em Transe, de Glauber Rocha

 

Texto clássico de Ismail Xavier, Alegorias do Subdesenvolvimento, publicado pela primeira vez no Brasil em 1993 (pela Editora Brasiliense), merece agora reedição da CosacNaify, enriquecido com prefácio e posfácio originais do autor.

Interessante o destino desse texto. Sua origem é a tese de doutorado defendida na Universidade de Nova York em 1983. Dez anos depois, surge o livro, reescrito e modificado. Seu objeto: um conjunto de filmes decisivos para a história do cinema brasileiro moderno, surgidos na virada dos anos 60 e 70. Ainda na ocasião da primeira edição, via-se que esse conjunto de obras continuava a falar alto para a cultura brasileira. Vinte anos depois, se o panorama histórico foi alterado, sua importância não diminuiu e os ecos daquele tempo ainda se fazem ouvir. Daí a reedição, com as devidas atualizações resumidas ao prefácio e o posfacio que aborda o conceito básico utilizado, o de alegoria. Fora eles, o texto do livro é o mesmo de 1993.

Da mesma forma, continua presente a influência dos filmes estudados: Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) e O Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla, 1968); Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr., 1969), Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (Glauber, 1969); O Anjo Nasceu (Julio Bressane, 1969), Matou a Família e Foi ao Cinema (Bressane, 1969) e Bang Bang (Andrea Tonacci, 1970).

O que não significa que essa influência se mantenha uniforme ou intacta. Mesmo que alguns, senão a totalidade desses filmes, se incorporem ao cânone do cinema brasileiro, suas vozes se fazem sentir de maneira heterogênea hoje em dia. Nem poderia ser de outro modo. No calor da hora, tematizavam um dos momentos mais agudos da história política e cultural do País. O cinema dialogava, influenciava e era influenciado por outras artes. E os filmes conversavam entre si – muitas vezes de maneira pouco amistosa. O livro se incrusta nesse miolo em que, diante de uma situação política adversa, explode, sob a marca do desencanto, a polêmica entre o Cinema Novo, o cinema dito “marginal” e o Tropicalismo.

Um filme fora do quadro de estudo – Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber, 1964) fornece a baliza de compreensão para os que vêm depois. Deus e o Diabo expressa, de maneira perfeita, a questão da teleologia revolucionária, que entrará em crise nas obras criadas após o golpe de 1964. No caminho da trama de Deus e o Diabo, é a certeza da revolução que fornece, a posteriori, sentido ao todo: “…A sucessão dos fatos ganha sentido a partir de um ponto de desenlace que define cada momento anterior como etapa necessária para atingir o telos (fim)”. As etapas da trajetória do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) são as da tomada de consciência revolucionária. Sua corrida, do sertão rumo ao mar, expressa esse telos, de certa forma inevitável em função das tensões sociais em que se vive e da expectativa de um desenlace breve. “A violência revolucionária – caminho para superar a condição subalterna – estaria, portanto, na agenda da nação, pois esta tem um projeto”.

Com a mudança do panorama histórico – e o arquivamento da tese ingênua da inevitabilidade da revolução -, os filmes mudam de figura. Terra em Transe, entre outras coisas, é também reflexão sobre o fracasso da utopia da esquerda revolucionária. Digestão do golpe e meditação das razões pelas quais as esperanças caíram sem qualquer reação. O importante, do ponto de vista crítico, é que esta ruminação já se dá em chave alegórica – expressando “a crise da teleologia da história, ou sua negação mais radical”. Um passo a mais seria o que Ismail chama de “expressões apocalípticas saídas da nova geração que rompeu com o Cinema Novo a partir de 1968-1969.”

Num estudo que toma a questão formal como caminho na direção do político, não se estranha a metodologia aplicada pelo autor. O close reading apanha, na estrutura da obra, o depósito histórico que conforma o sentido do real. Desse modo, a estética alegórica permitirá leitura particularmente rica. Não apenas, como lembra o autor, porque a alegoria oculta (o que é útil em tempo de censura), mas porque condensa uma reflexão “às vezes implícita, do cineasta diante da crise (de um projeto de sociedade, de um projeto de cinema).”

Desse modo, a primeira parte do livro, estuda Terra em Transe e O Bandido da Luz Vermelha, dois filmes que marcam a crise da teleologia da história. Em seguida, e numa bifurcação delineada a partir do Bandido, essa ruptura segue dois percursos diversos. O primeiro, em que as alegorias buscam, de forma problemática, as relações que se chocam entre a identidade nacional (conceito também ele problemático) e a modernização conservadora proposta pela ditadura. Nessa linha estarão filmes como Brasil Ano 2000, Macunaíma e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Na segunda, predomina a antiteleologia radical, impressa no próprio estilo de representação, “definindo um cinema moderno e sua recusa de síntese”. Nessa experiência de transgressão, “a antiteleologia se internaliza e se torna princípio formal”. São os casos de Matou a Família e Foi ao Cinema e Bang Bang.

Seria interessante, à guisa de questão pendente, indagar sobre a permanente atração que o “discurso apocalíptico” exerce sobre gerações mais jovens, nem nascidas no tempo em que esses filmes apareceram. Num contexto histórico-político já bem diverso, é curioso como essas obras antiutópicas continuam a falar aos espíritos rebeldes, com ou sem causa. Como se uma ponte invisível se erguesse entre o criativo desespero daquela fresta dos anos 60/70 e os acomodados e tediosos anos 2000.

 * Publicado originalmente no Sabático de 19/1/2013

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.