‘Albatroz’, ideograma chinês de cabeça para baixo
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‘Albatroz’, ideograma chinês de cabeça para baixo

O filme de Daniel Augusto é um objeto cinematográfico não identificado. Porém, pode ser estimulante para mentes que aceitam e gostam de desafios

Luiz Zanin Oricchio

11 de março de 2019 | 17h37

 

Faz parte da história – e do folclore – surrealista. Em Paris, os espanhóis Luís Buñuel e Salvador Dalí, então dois desconhecidos, se reuniram para escrever o roteiro de um filme. A ideia central era a seguinte: sempre que uma imagem, ou conjunto delas, fizesse algum sentido, seria imediatamente descartada. Dessa opção pelo não-sentido nasceu Un Chien Andalou (Um Cão Andaluz), clássico do cinema surreal e experimental de todos os tempos. Albatroz, de Daniel Augusto, com roteiro de Bráulio Mantovani, parece beber nessa inspiração antiga – Un Chien Andalou é de 1928!

Mas não se trata apenas disso. Augusto e Mantovani reivindicam a influência muito mais recente de A Estrada Perdida (1997), puzzle cinematográfico de David Lynch, além de manter contato com as pesquisas das neurociências e especulações da filosofia em torno dos limites entre razão, desrazão e sonho.

Parece confuso – e é mesmo, em especial para mentes que pensam funcionar no registro único do discurso racional. E que, portanto, pedem a uma obra de ficção que estabeleça nexos lógicos de causa e efeito, se desenvolva de maneira orgânica na exposição de uma história e caminhe para um final coerente e que dê fecho a eventuais impasses do enredo. Esses fugirão de Albatroz como do diabo em pessoa.

Por outro lado, o filme é uma oportunidade de imersão num mundo eletrizante, em que a lógica da narrativa permanece em suspenso e a “história”, em cada ponto do seu desenvolvimento, parece se abrir em inúmeras possibilidades – tais como os “caminhos que se bifurcam”, título de um dos contos de Jorge Luís Borges, escritor que também gostava dos paradoxos mentais embora escrevesse em prosa absolutamente cristalina.

Albatroz tem o que se poderia chamar de um “núcleo de trama”, que se apresenta de maneira assimétrica e fragmentada ao longo do filme. A sinopse é, portanto, uma reconstrução a posteriori e mera possibilidade entre outras. Reunindo esses cacos, podemos dizer que Simão (Alexandre Nero) é um fotógrafo casado com uma compositora de jingles, Catarina (Maria Flor) e se apaixona por uma atriz Renée (Camila Morgado). Viaja com Renée a Jerusalém e lá testemunha um atentado, do qual tira fotos que o deixam mundialmente famoso.

Como ele não interveio no crime, mas registrou imagens que lhe foram muito lucrativas, entram, em paralelo, as questões da ética da imagem, da fotografia e da arte em geral. E também do próprio jornalismo. Na época da imagem e do fake news, tudo está em questão, em particular a noção de verdade aplicada a cada fato ou a cada pixel.  

Daniel Augusto é autor do documentário Não Pare na Pista – a Melhor História de Paulo Coelho e de vários programas culturais feitos para a televisão. Fez mestrado sobre Guimarães Rosa e agora desenvolve doutorado em filosofia. Move-se no mundo da cultura como quem anda pelas ruas de uma cidade conhecida. Bráulio Mantovani é roteirista de vários filmes conhecidos, entre os quais o incontornável Cidade de Deus e o premiado Tropa de Elite. Juntos, resolveram bolar um quebra-cabeças e entregá-lo ao distinto público, como desafio.  

Tecnicamente, Albatroz é muito bem construído. A fotografia, com a categoria de sempre, é um dos bambas do métier, o fotógrafo Jacob Solitrenick. A montagem constrói um labirinto tanto instigante quanto assustador e o elenco se entrega com convicção aos seus papéis. Mesmo que, como disseram vários dos atores e atrizes presentes na pré-estreia pública em São Paulo, não tivessem a mínima ideia do que estavam fazendo em cena. Era como trabalhar no escuro, mas, em todo caso, num projeto no qual se confia – cegamente, é o caso de dizer.

Cabe acompanhar a repercussão tanto de público como de crítica a este filme difícil (e estimulante) que chega ao circuito num momento de inusitada preguiça mental e hostilidade franca a qualquer coisa que soe como inteligente. Nesse contexto, Albatroz alça vôo como um objeto cinematográfico não identificado. Pode até virar cult, se algum vento bom soprar a favor.