Alan Parker no Rio Negro
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Alan Parker no Rio Negro

Luiz Zanin Oricchio

13 de novembro de 2008 | 17h16

parker

MANAUS
Talvez um barco subindo o Rio Negro não seja o local mais indicado para uma conversa profissional sobre cinema. Mas tem suas compensações – a paisagem e uma certa calma, ditada pelo ritmo amazônico. Foi assim o papo do Estado com o cineasta britânico Alan Parker, presente em Manaus para presidir o júri de longas-metragens de ficção do 5º Amazonas Film Festival. Parker, diretor de sucessos como Mississipi em Chamas, O Expresso da Meia-Noite e Evita é um tipo bonachão, sempre prestes a uma tirada de humor.

Como, por exemplo, quando comenta sobre a vitória do seu time, o Arsenal, sobre o Manchester United, no último sábado. “Tive o prazer de ouvir o meu nome citado pelo locutor da emissora”, disse, orgulhoso. Parker colocou uma condicional ao convite para presidir o júri internacional – queria ter certeza de que não perderia este e nem outros jogos da Liga Inglesa enquanto estivesse fora dos domínios do seu país. Ele, que gosta tanto do futebol jogado nas quatro linhas, disse ao Estado que não se entusiasma muito com os filmes sobre esse esporte. “Soam todos falsos, porque é impossível que atores reproduzam os movimentos dos jogadores de verdade”, diz. “Você pode imaginar Eddy Murphy interpretando Ronaldinho Gaúcho?”, pergunta ao repórter. Lembra também que um dos livros mais interessantes sobre o futebol britânico, Febre de Bola (Fever Pitch), de Nick Hornby, virou filme e é, justamente, sobre um torcedor fanático do Arsenal, como ele. Já os documentários sobre futebol parecem mais aceitáveis para esse aficcionado exigente – “Pelo menos estão lidando com os fatos futebolíticos como eles aconteceram”, diz com objetividade bem britânica.

Enquanto espera por um redentor filme sobre futebol, que ele não espera filmar, Parker ocupa seu tempo rodando obras de gêneros e temáticas diversas: Bugsy Malone (1976), O Expresso da Meia-Noite (1978), Fama (1980), Pink Floyde, the Wall ( 1982), Asas da Liberdade (1984), Coração Satânico (1987), Mississipi em Chamas (1988), The Commitments – Loucos pela Fama (1991). Nos anos 90, Parker diminui o ritmo. Além do grande sucesso de The Commitments, lançou O Fantástico Mundo do dr. Kellogg (1994), Evita (1996), As Cinzas de Angela (1999) e A Vida de David Gale (2002). Por que a diminuição do ritmo? “Dirigi durante sete anos o British Film Institute (BFI), o instituto do cinema inglês, e isso toma um tempo danado da gente”, diz. Além disso, os métodos de financiamento se tornaram mais difíceis com o passar do tempo. “É mais fácil eu relaxar e ir assistir a um jogo no campo do Arsenal”, diz, brincando.

Em todo caso, Parker avisa que está terminando o roteiro do seu próximo projeto, The Ice at the Bottom of the World, e que deve ser filmado em 2010. E, apesar das dificuldades que sofre pessoalmente, diz que o sistema de produção do cinema britânico lhe parece “saudável”, neste momento. “Na verdade, são dados mais da economia do que referentes à arte; para nós é a questão da proporção entre libra e dólar que pesa. Para você ter idéia, hoje existem mais de 200 diretores de cinema britânicos trabalhando nos Estados Unidos e não em nosso país”.

Ontem, Parker passou a noite num hotel no meio da selva, onde se divertiu na festa do boi-bumbá, disputa entre as agremiações Caprichoso e Garantido, de Paraintins. De manhã foi, com o grupo de estrangeiros do festival, alimentar os botos cor-de-rosa, uma das grandes atrações do turismo ecológico da Amazônia. Está de volta a Manaus para assistir aos últimos filmes do festival, que termina nesta quinta-feira.

(Caderno 2, 13/11/08)

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