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Alain Resnais: Medos Privados em Lugares Públicos

Luiz Zanin Oricchio

17 de julho de 2007 | 15h37

Não foi pouca a surpresa das pessoas no Festival de Veneza do ano passado quando Alain Resnais apresentou o que em aparência era apenas um drama romântico. Quem estava acostumado a associá-lo a filmes como Hiroshima, Meu Amor ou O Ano Passado em Marienbad, ou mesmo a Meu Tio da América, talvez tivesse dificuldade em acompanhar essas histórias cruzadas de seis personagens em busca de uma promessa de afeto. Mas talvez seja possível pensar neste Resnais de agora como continuação e comentário daquele de Melô, ou mesmo de Smoking no Smoking.

Em particular deste último, já que as afinidades estão mesmo na origem teatral de ambos. Tanto Smoking no Smoking quanto este Medos Privados em Lugares Públicos se baseiam em peças do inglês Alan Ayckbourn. No festival, o filme ficou sendo chamado apenas de Coeurs – Corações. O distribuidor brasileiro deve ter achado o título meio meloso. Ou banal.

E então optou por algo mais descritivo, e que tem a ver com o título original em inglês. Pois o que deve fato existe nesta ciranda dos personagens é isso mesmo – receios íntimos que se abrigam atrás das conveniências sociais e se expressam com dificuldade no espaço público. Em especial em sociedades contidas, como é o caso das européias. O medo da solidão é uma constante. Ele está no corretor imobiliário solteirão que vive com a irmã mais moça; no casal em via de se separar e mesmo assim procura apartamento; na solteirona que assiste e recomenda programas edificantes na televisão ao mesmo tempo em que alimenta devaneios eróticos; na mocinha que sai à noite à procura de companhia masculina pelos bares. Em todos, enfim, mesmo no doente inválido que insulta as enfermeiras.

A estrutura das histórias que se cruzam é construída com o rigor habitual que se espera do cinema de um mestre. Aos 85 anos, e cheio de vigor, Resnais tem o domínio completo do seu instrumento. A ponto de utilizá-lo à sua vontade, complicando-o quando necessário, simplificando-o quando lhe convém. Aqui, a história aparente é de aspirações e desencontros amorosos. O que se passa nas entrelinhas, ou, no caso, nas entrecenas, é de outra ordem.

Desde Melô, ou Smoking no Smoking, Resnais não se preocupa com o mimetismo da realidade. Seu espaço cinematográfico construído não nega nem recusa a origem teatral do texto. Não faz teatro filmado, mas também não faz cinema ilusionista. Sabe-se, desde as primeiras cenas, que aquela é uma Paris imaginária, artificial, gelada, onde neva o tempo todo, porque também há gelo nos corações das pessoas.

Mas sob esse gelo, existe muita brasa acesa. Quer dizer, as pessoas mantêm viva a esperança, quer dizer, o desejo, mesmo quando a idade e circunstâncias talvez o desaconselhem. E, no entanto, como se sabe, não é da natureza do desejo ser realista, obedecer ao bom senso ou renunciar à satisfação. Neste pequeno estudo sobre o temor e a esperança, o que se tem é um comentário sobre a antiga contradição entre a ordem individual e a ordem social repressiva. Entre elas, existe um verniz tênue que se quebra de tempos em tempos. Resnais fala a partir dessas rachaduras.

(Estadão, Caderno 2, 13/7/07)

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