Alabama Monroe
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Alabama Monroe

Luiz Zanin Oricchio

23 Janeiro 2014 | 10h27

 

Um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o belga Alabama Monroe, de Felix van Groeningen, não deixa de ter suas qualidades. Consegue mesclar o charme da vida de dois outsiders a uma trilha musical cativante, e ajunta ainda esses ingredientes ao que seria o seu centro de gravidade maior – um drama familiar da pesada. É neste, no entanto, que às vezes derrapa e perde um pouco seu sentido.

Apesar de falado em flamengo, o filme de van Groeningen,  é uma ode aos Estados Unidos. Ou a uma parte dos EUA, a um dos seus aspectos, digamos assim, o de mito da terra da oportunidade. Em relação a outros, será crítico, mas apenas após um desenlace sofrido. Seu protagonista, o músico belga Didier (Johan Heldenbergh) é apaixonado pelo bluegrass country e toca banjo numa banda especializada nesse tipo de música. Ele e a tatuadora (e hipertatuada) Elise (Veerle Baetens) começam um romance. Ela se incorpora à banda, como cantora. Casam-se e têm uma filha, mas, com os anos, a garota começa a apresentar problemas de saúde.

A partir desse momento, a história transforma-se num drama familiar, comovente mas bastante convencional, como se espera quando o assunto é a doença grave de uma criança encantadora.

O desenvolvimento posterior da trama também não é inesperada. Casais que passagem por experiências semelhantes habitualmente entram em crise. Há um sentimento de culpa envolvido nessa cruel inversão da ordem natural das coisas. Tenta-se culpar o outro. Tentam-se explicações, que não existem. As próprias pessoas, no fundo, sabem que estão mentindo para si mesmas, e que não existe ninguém a culpar, exceto o destino cruel, ou o acaso que nos escolheu para vítimas, ou coisa parecida. Brigar com o outro tem a mesma função de esmurrar uma parede quando se está com raiva. Serve apenas para desabafar, mas não se sai desse esforço sem machucados adicionais.

Alabama Monroe é bem filmado e bem interpretado. Em especial, destaca-se o carisma da atriz Veerle Baetens. Ela consegue dar consistência a essa personagem que, até pelo aspecto físico, parece pouco convencional, mas, diante das circunstâncias, reage como reagiria qualquer mãe normal.

O que causa um pouco de estranheza é o desenvolvimento da trama, que convém não antecipar muito. Se o comportamento da mãe é o que reconhecemos como “normal”, o do pai não se enquadra muito. Destoa. E parece um tanto artificial quando sua revolta se transforma em discurso pouco convincente a favor da pesquisa com embriões e células-tronco. Vamos dizer: soa esquemático, mesmo didático, e então a nossa emoção apresenta uma substancial queda de nível.

O filme apresenta contrastes interessantes. Didier é tão fanático pelos Estados Unidos que parece até meio bobo. Em entrevista, o próprio diretor van Groeningen diz que recebeu críticas por seu tom americanófilo. Mas, se mesmo os Estados Unidos podem ser sinônimos da terra da oportunidade para Didier, também são o país de Bush e do fundamentalismo que atravanca o progresso da ciência. Esse ritmo do desencanto poderia ter sido pronunciado com mais sutileza e não da maneira abrupta e pouco convincente escolhida. Não é crível. O que não significa que não possa acontecer na vida real. É apenas no interior da construção ficcional de Alabama Monroe que ela carece de verossimilhança.