Ainda há tempo para ver a Mostra Miguel Littín
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Ainda há tempo para ver a Mostra Miguel Littín

Luiz Zanin Oricchio

06 de abril de 2021 | 11h38

O Chacal de Nahueltoro

 

Mostra Cinema Latino-americano de Miguel Littín. (de 1 a 8 no SPCine Play, gratuitamente:  www.spcineplay.com.br. Na retrospectiva, composta de 12 longas-metragens do diretor chileno, estão obras fundamentais como Chacal de Nahueltoro, Actas de Chile,  Actas de Marusia e A Viúva de Montiel. Actas de Chile tem uma história interessante. Exilado, e integrante de uma lista de inimigos do regime de Pinochet, que não poderiam voltar ao país, Littin aventurou-se a entrar disfarçado no Chile e filmar as reais condições do país. A proeza deu origem ao livro de Gabriel García Márquez A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile. O livro, narrado em primeira pessoa, é fruto de uma entrevista de 16 horas concedida pelo cineasta ao escritor. Destaco também o belo (e duro) Chacal de Nahueltoro, baseado num crime real que comoveu o Chile. Um homem muito pobre, e com problemas mentais, mata uma mulher e suas filhas. Preso, ele é condenado ao fuzilamento. Um poderoso libelo contra a pena de morte. Vale muito a pena ver O Recurso do Método, baseado no romance do cubano Alejo Carpentier, uma alegoria sobre os regimes totalitários da América Latina e seus ditadores folclóricos. Há também o belo documentário Companheiro Presidente, em que o filósofo e revolucionário francês Régis Debray entrevista (e debate com) o então recém-eleito presidente Salvador Allende.  Littín, hoje aos 78 anos, sempre foi um diretor profundamente político e também um inventor da linguagem cinematográfica. 

Destacaria, também, o excelente Companheiro Presidente, um diálogo (mais do que entrevista) entre o então recém-eleito presidente Salvador Allende e o filósofo francês Régis Debray. Debray havia participado com o Che Guevara da guerrilha boliviana. Foi preso e acabou solto por pressão internacional. Em 1971, ele conversa com Allende, que estava havia três meses no cargo. É uma conversa de alto nível, sem tergiversações ou afagos, embora, sente-se, a admiração seja recíproca. Debray aponta que o novo governo chileno seria reformista e não revolucionário, embora dirigido por um marxista. Allende defende as vertentes revolucionárias do seu governo, embora trabalhando dentro das instituições. Meses depois desse encontro, Allende já havia nacionalizado bancos e minas de cobre. Cairia em 1973, sob o golpe de direita liderado por Pinochet.

Em certo momento, García Márquez lê um trecho de sua autoria sobre o presidente. São linhas preciosas, que transcrevo a seguir: “Amaba la vida, amaba las flores y los perros y era de umna galantería un poco a la antigua, com esquelas perfumadas y encuentros furtivos. Su virtud mayor fué la consecuencia, pero el destino le deparó la rara y trágica grandeza de morir defendiendo a bala el mamarracho anacrónico del derecho burgués, defendiendo una Corte Suprema de Justicia que lo había repudiado y había de legitimar a sus asesinos, defendiendo un Congreso miserable que los había declarado ilegítimo pero que había de sucumbir complacido ante la voluntad de los usurpadores, defendiendo la libertad de los partidos de oposición que habían vendido su alma al fascismo, defendiendo toda la parafernalia apolillada de um sistema de mierda que él se había propuesto aniquilar sin disparar un tiro. ”

Que texto, hein? La puta madre!

Chega também ao streaming o poderoso documentário brasileiro Currais, da dupla cearense Sabina Colares e David Aguiar. Relembra um fato histórico, existência de campos de concentração no Brasil durante os anos 1930. Os Estados do Nordeste foram atingidos por grandes secas, particularmente em 1877, 1915 e 1932. Ao longo da terrível estiagem de 1932, governos estaduais e o poder central decidem que o problema dos retirantes seria bem resolvido pela construção de campos, onde eles ficariam compulsoriamente “hospedados” e prestariam serviços à comunidade. 

O objetivo era impedir a chegada de uma horda de famélicos às cidades, cujas populações, como a de Fortaleza, viviam apavoradas, receando saques e tumultos. Desse modo criaram-se esses campos de concentração, que na época eram chamados de “currais do governo”. Estreia nas plataformas ITunes, Apple TV +, Google Play, Youtube Filmes, Vivo, Now e Looke. 

Para terminar de forma mais amena, destacamos um documentário sobre um grande artista plástico brasileiro, Siron Franco.

O documentário SIRON. TEMPO SOBRE TELA, de André Guerreiro Lopes e Rodrigo Campos, estreia nas plataformas de streaming, Belas Artes A La Carte, Now, Vivo TV, Sky Play e Looke com distribuição da Pandora Filmes e investiga a arte e a vida de Siron Franco com imagens captadas ao longo de duas décadas, combinadas com filmagens caseiras do próprio artista. Siron é também um artista engajado e fez séries de obras sobre a questão ambiental e o acidente fatal com o material radioativo Césio-137 em Goiânia. 

 

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