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Ainda em torno do Oscar

Luiz Zanin Oricchio

09 de março de 2010 | 08h17

Engraçadas as expectativas em torno do Oscar 2010. Houve um momento em que Avatar foi o favorito total. Depois Guerra ao Terror cresceu. Chegou-se ao equilíbrio quando cada um deles recebeu nove indicações. Pensou-se em empate técnico, ou quase, já que apenas um teria de ganhar a estatueta principal – a de melhor filme. Em todo caso, previa-se mais equilíbrio. Mas, o que se viu foi um verdadeiro nocaute. Guerra ao Terror ficou com seis prêmios – entre eles a trinca forte de melhor filme, direção e roteiro. Coube a Avatar apenas três estatuetas, entre as quais a de fotografia, bastante discutível.

Assim, o “filme mais rentável de todos os tempos” (mas não o mais visto) não se viu levado muito a sério pela Academia. Poderíamos ter desconfiado dessa má disposição quando Avatar sequer foi indicado na categoria de roteiro – muito importante para o cinema hollywoodiano. Guerra ao Terror, pelo contrário, rendeu o prêmio de roteiro original a Mark Boal, o jornalista que foi ao Iraque acompanhar a vida dos soldados desmontadores de bombas, cuja história descreve.

Os dois filmes exprimem visões diferentes da intervenção norte-americana em outros países. Avatar, num misto de maturidade e inocência, fala da união entre forças armadas e corporações na invasão de outros países para fins econômicos. Ressuscita o bom selvagem de Rousseau e precisa usar o recurso de um norte-americano devidamente metamorfoseado para justificar a defesa armada do planeta. Já Guerra ao Terror situa-se na chave realista, menos para falar do conflito no Iraque do que para abordar o paradoxo dos “adictos da guerra”, que não podem passar sem o estímulo da adrenalina. É personalizar demais um conflito que gerou tanta morte e sofrimento, e continua em curso.

De qualquer forma, o 82º Oscar entra para a história como o primeiro a ter dado o prêmio de melhor direção a uma mulher que, em seguida, voltou ao palco para receber a estatueta principal. Não deixa de ser significativo que esse reconhecimento seja para um trabalho notável por sua masculinidade. É como se Kathryn Bigelow, bela e feminina, dirigindo seus filmes de maneira viril, enfrentasse os homens em seu próprio terreno. Uma espécie de fecho simbólico das reivindicações feministas iniciadas no século passado.

Outras categorias tiveram premiações previsíveis – Jeff Bridges (ator), Sandra Bullock (atriz), Christoph Waltz (ator coadjuvante) e  Mo’Nique (atriz coadjuvante) eram mesmo os favoritos. São bons trabalhos, a começar pelo de Bridges, comovente na caracterização do astro country alcoólatra e decadente.
A maior surpresa da noite foi a vitória de O Segredo dos seus Olhos, do argentino Juan José Campanella, ao derrotar o favoritíssimo A Fita Branca, de Michael Haneke. Filme por filme, o de Haneke é muito mais completo e complexo.

Campanella venceu amparado em suas virtudes de bom narrador, com uma história mista de thriller e romance. Mas há, no meio do filme, uma sequência que o justifica quando a câmera “invade” um estádio de futebol, partindo do alto e chegando ao meio da torcida, onde, se supõe, um suspeito possa estar. De tirar o fôlego.

Outro aspecto a ser observado é o das relações entre o Oscar, os festivais e a crítica. A crítica e Cannes consagraram A Fita Branca, mas isso não foi suficiente para levá-lo à vitória no Oscar. Já Guerra ao Terror concorreu em Veneza, não recebeu qualquer prêmio, mas ganhou resenhas favoráveis, em especial nas publicações americanas. Comercialmente, ninguém dava nada por ele, tanto que no Brasil foi lançado direto em DVD. As críticas favoráveis o foram sustentando, começou a ganhar prêmios importantes até chegar ao Oscar e arrebatá-lo. Para alguma coisa servem os que escrevem sobre cinema, mesmo que as relações entre a crítica e o sucesso ou fracasso de um filme quase nunca sejam automáticas, ou mesmo visíveis. Fica sempre alguma coisa do que se lê.