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Ainda Altman

Luiz Zanin Oricchio

22 Novembro 2006 | 11h30

Eu acabava de chegar a Brasília e estava dentro de uma van, com um monte de gente tagarelando, quando o celular toca. Era o meu editor, Dib Carneiro Neto, pedindo socorro pois a notícia da morte de Robert Altman acabava de chegar à redação. Nessa hora, a gente reage profissionalmente: qual o tamanho do texto e até que horas posso mandar?

Cheguei ao hotel, assinei a ficha rapidinho, subi para o quarto, instalei o laptop e comecei a escrever. A matéria era relativamente grande mas o tempo curto. Sem tempo para pensar muito. Só lá pelo final do texto caiu a ficha: pô, não vou ver mais nenhum filme novo do Altman. Que eu me lembre só havia tido esse tipo de pensamento muitos anos atrás, quando estava, segundo o jargão das redações, “enterrando” o grande Federico Fellini. Terminei o meu papel de coveiro cultural e mandei o texto. Ficou grande, tive de cortar. Essa é a primeira versão, sem cortes, do que escrevi ontem sobre Altman:

Em uma das cenas de A Última Noite, um personagem octogenário morre nos bastidores de um show de música country. Uma mulher bonita, que personifica o anjo da morte, comenta algo do tipo: “A morte de um homem de mais de 80 anos não é nada, não deve nem ser lamentada. O show continua”. E não é que o danado do Altman estava sendo profético e falando dele mesmo neste que agora vai ficar para a história como seu derradeiro filme? Robert Altman, o grande mestre do cinema americano, se foi ontem, com 81 anos muito bem vividos.

Não é somente um modo de dizer. Com o desaparecimento de Altman, chega ao fim uma trajetória de 55 anos no cinema, na qual atuou como diretor, produtor e roteirista. Altman recebeu este ano um Oscar pela carreira, reconhecimento tardio da Academia, que nunca o havia premiado. Várias vezes ele quase chegou havia chegado lá, mas sempre viu a estatueta escapar-lhe das mãos. Como diretor foi indicado por M.A.S.H. (1970), Nashville (1975), O Jogador (1992), Short Cuts (1993) e O Assassinato em Gosford Park (2001). Além disso, Nashville e Gosford Park foram indicados à estatueta de melhor filme. Nunca venceram. Altman sentia que sua proposta de cinema não era lá muito adequada ao gosto médio da Academia. Comentou certa vez: “Na loja de Hollywood vendem sapatos e eu fabrico luvas”. Nenhum juízo de valor: são apenas produtos diferentes.

Ironia refinada no tom, essa era a marca registrada dele, como pessoa, e que estendia aos seus filmes, pelo menos aos melhores. E entre os trabalhos mais bem sucedidos de Altman encontram-se exatamente alguns aqueles que foram indicados ao Oscar mas não chegaram a receber o prêmio. Entre eles, M.A.S.H e Short Cuts, que não foram reconhecidos em sua terra, mas ganharam dois dos três principais festivais europeus: M.A.S.H venceu Cannes em 1970 e Short Cuts, o Leão de Ouro em Veneza em 1996. Como Oeste Selvagem já havia vencido Berlim em 1976, Altman detém o privilégio de ter abiscoitado a tríplice coroa dos mais importantes festivais da Europa. No velho continente, Altman era considerado um autor completo, um mestre da arte cinematográfica.

E de que outra forma qualificar um diretor que transforma uma comédia talvez banal, como M.A.S.H., num satírico e delicioso libelo contra a presença americana no Vietnã? O fato é que os filmes de Altman eram, desde então, dotados daquela fluidez narrativa só encontrável nos diretores de cinema de alto nível. O trabalho com a imagem, com os enquadramentos, com a seqüência de planos que se sucedem como se tudo só pudesse ser daquela maneira e não de outra: seu cinema parece um rio, que escorre livremente. Lembremos que, para o nosso Humberto Mauro, o cinema deveria ser como cachoeira, frase de múltiplas interpretações, mas que indica essa necessidade da fluidez, do ritmo, da naturalidade das cenas que se encadeiam, como se fosse um fenômeno da mãe natureza e não um artefato da mão do homem.

É dessa forma, intensa e natural, que ele registra os bastidores da música country no notável Nashville. Ou retrata Hollywood e seus produtores cheios de cobiça em O Jogador. Ou o cotidiano de pequenos personagens em Short Cuts, adaptado do contista Raymond Carver. Esse Altman incisivo, mas ao mesmo tempo amigo do prazer cinematográfico, dialoga com outro mestre do mesmo calibre, Jean Renoir, no campestre O Mistério de Gosford Park. E coloca sua ironia fina de novo em ação quando trata de retratar o fútil universo da moda em Prêt-à-Porter, que conta com ninguém menos que Sophia Loren e Marcello Mastroianni no elenco.

Os elencos de Altman dariam capítulo à parte em sua biografia. Atores e atrizes faziam questão de trabalhar com ele, pois isso significa currículo e também um enorme prazer, da mesma forma que Tom Cruise e Nicole Kidman aderiram ao projeto de Stanley Kubrick em seu último filme. Também Altman recrutava as estrelas top de Hollywood e as fazia atuar pelo cachê do sindicato. Os atores e atrizes sabiam que, ao trabalhar para Altman, não estaria engordando contas bancárias já obesas, mas comprando um passaporte para o reconhecimento artístico.

Não cabe aqui uma análise filme a filme, mas apenas um exemplo de como Altman trabalhava uma idéia e a transformava em imagens. Ele mesmo conta que combateu o tédio de uma viagem entre Paris e Nova York lendo os pequenos relatos de Raymond Carver. No meio do vôo, adormeceu e sonhou. E, no sonho, as histórias cheias de humanidade de Carter dialogavam entre si. Os personagens de uma entravam em outra, como se os enredos tivessem abolido suas fronteiras e aberto portas para que seus persoanagens passassem livremente e se comunicassem. Quando acordou, Altman decidiu que essa seria uma boa maneira de levar a prosa de Carter para o universo cinematográfico. E assim o fez. Entrelaçando ações, de modo que, ao final, o que se tem é um microcosmos de L.A., vista como se fosse um tecido de vidas humanas. Inútil dizer o quanto um filme como esse foi influente e como suas idéias se viram incorporadas por diretores mais jovens como o talentoso mexicano Alejandro Gonzáles Iñurritú, autor de Amores Brutos e Babel, filmes que exploram essa vertente legada por Altman.

É claro que nessa filmografia extensa (48 longas, incluídos os feitos para a TV) nem tudo é genial. Mas mesmo os filmes “menores” de Altman, como os recentes Kansas City (1996), A Fortuna de Cookie (1999) Dr. T e as Mulheres (2000), respiram livremente, graças às melhores qualidades do cineasta: o frescor, aliado ao domínio pleno da técnica; o rendimento do elenco e a maneira nunca banal de colocar a câmera ou pensar a fotografia ou a música. O artefato cinematográfico pensado por Altman se volta para o prazer visual do espectador, essa pulsão tão desprezada pela imensa maioria do cinema produzido hoje em dia. Altman, da mesma forma que um grande pintor, usa suas obras para nos ensinar a enxergar. E mais do enxergar, a ver, pois é disso que se trata no cinema.

E, sim, Altman agrega à capacidade artística aquela alegria das pessoas bem resolvidas e portanto bem-humoradas. Como sabia muito bem que era um mestre, não precisava fingir que se levava demasiado a sério. Ia fazendo seus filmes que, para nós, cinéfilos, eram uma dimensão muito concreta da felicidade que se pode ter nesta vida. Vá ao cinema e assista a A Última Noite para ver se não é assim mesmo.