As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Ainda a tragédia

Luiz Zanin Oricchio

19 de julho de 2007 | 14h07

Estamos todos confusos. E com razão. Podemos fingir que conhecemos as causas da tragédia, que já temos os culpados e basta execrá-los em praça pública para que coisas assim não se repitam mais.

Podemos fingir tudo isso, e com a maior sinceridade. No íntimo, sabemos também que tudo o que aconteceu se reveste da maior complexidade. E isso nos enfurece ainda mais. Pois admitir a complexidade da tragédia significa admitir que somos impotentes para evitar de maneira definitiva que volte a acontecer no futuro. Podemos tomar todas as precauções do mundo e mesmo assim a vida continuará sendo frágil.

Certo, devemos exigir que todas as garantias possíveis nos sejam dadas. Mas ninguém pode nos dar 100% de garantia a cada vez que entramos num avião ou no nosso carro ou no metrô. Vida é risco. Que pode ser diminuído, mas não zerado.

Dito isso, é claro que é preciso ir fundo e apurar as responsabilidades, em todos os níveis: companhias aéreas, Anac, Infraero, governo, todas as partes envolvidas.

Qualquer um pode ver que existe um problema sério na regulação aérea do país e não apenas com os controladores de vôo. Nós, que viajamos muito, já nos habituamos às barrinhas de cereais, ao aperto das poltronas, aos atrasos, ao overbooking, às fusões de vôos para que não restem lugares vagos e assim as companhias possam lucrar o máximo.

Vamos levando, mas, quantas vezes, olhando pela janelinha do avião, já me peguei pensando: “Se a manutenção dessa geringonça estiver sendo feita da mesma maneira que nos tratam a bordo, estamos fritos”.

Mas fingimos (mais uma vez) que não é assim, porque todo o sofisticado mecanismo necessário para colocar um avião no ar nos escapa. Só tomamos contato com a superfície desse processo complexo e na medida em que ele nos afeta e incomoda: quando atrasa, nos dá gastrite, quando nos aperta os joelhos, quando a mala se extravia.

Quantas vezes também pensei: e ninguém toma conhecimento disso? Ninguém controla? Eles fazem o que querem? E é mais ou menos isso: no caos regulatório, as companhias fazem o que entendem. Se quiserem fazer bem, bom para nós; se não, problema nosso. Esse é o ponto principal, a meu ver. Mas não vai ser resolvido com histeria e sim com políticas adequadas. Esse é um desafio interessante para quem acredita no fundamentalismo do mercado auto-regulatório.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.