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Afinal, o que é um favorito? *

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2013 | 10h33

Agora que começam as definições, nos perguntamos: quem é o favorito? Por exemplo: Santos x Palmeiras – quem passa? Já ouço a resposta: clássico não tem favorito. Mas todo mundo concorda que, no papel, o time do Santos é melhor, além de ter um jogador que pode desequilibrar uma partida. Por que não dizer, então, que o Santos, que além de tudo joga em casa, é o favorito? É mesmo, mas vai que não ganhe…E pode não ganhar, porque o nome do jogo é futebol, o esporte coletivo mais imprevisível entre todos.

Outra disputa que vem levantando discussão: Atlético-MG e São Paulo. Qual tira o outro da Libertadores? Ora, até outro dia o Atlético era o time que praticava o melhor futebol no País. Tinha 100% de aproveitamento na Libertadores – até ser derrotado justamente pelo São Paulo, no Morumbi. E então vejo a expectativa se reverter. Quem já não acreditava mais no Tricolor, agora o dá como vencedor, time cascudo, copeiro. O que aconteceu? De repente o Atlético deixou de praticar seu maravilhoso futebol? Só porque perdeu um jogo? E o São Paulo, sobre o qual se depositavam dúvidas infinitas, encorpou-se de uma hora para outra, com uma única vitória, a ponto de merecer o título de favorito?

O outro jogo a respeito do qual os sábios recomendam o muro: Corinthians x Boca Juniors. Quem passa? Além de serem dois gigantes do futebol sul-americano, repetem as finais do ano passado. Nas quais, convém lembrar, o Timão deu banho nos argentinos, jogando de cabeça erguida inclusive na temida Bombonera. O que dizer? O Boca vive longe da sua melhor fase. Vegeta no 17º lugar do Campeonato Argentino, ao passo que o Corinthians está nas quartas de final do Campeonato Paulista e fortaleceu o elenco em relação ao ano passado. Por que então não dizer que o Timão é franco favorito nesse mata-mata? Mais uma vez: porque o nome do jogo é futebol e não basquete ou vôlei. A imprevisibilidade é muito maior.

Tão grande que, mesmo em jogos muito menos equilibrados, podemos dizer que o improvável pode acontecer. O São Paulo faz a partida de quartas de final do Paulistão contra a Penapolense. Aqui, o favoritismo é total. Mas alguém pode dizer, de antemão, que tudo está decidido? Ora, se a zebra pintar no Morumbi, não será a primeira e nem a última da história.

O que dizer então de jogos entre equipes tradicionais como Santos e Palmeiras, Atlético e São Paulo, Corinthians e Boca? Que em condições normais de pressão e temperatura, e se der a lógica, devem vencer Santos, Atlético e Corinthians. Mas qualquer outro resultado é cabível.

Então, o que é um favorito? É aquele time que, em tese, e antes de começar a partida, reúne as maiores chances de vencer. Antes, porque depois que se inicia o jogo, nova história começa a ser escrita. Cada partida é uma nova realidade. Pode ocorrer um lance fortuito, que altera toda a configuração previsível. Uma “bola vadia”, como dizia Nelson Rodrigues, que de repente faz uma curva inesperada, ou bate no morrinho artilheiro e vai morrer no fundo das redes. E tudo se altera.

Ou então são as condições da torcida que determinam resultados improváveis. O Corinthians enfrentou muito bem a torcida do Boca na Bombonera ano passado. Quem garante que este ano será a mesma coisa? Durante as férias estive em Buenos Aires e visitei o estádio do Boca. Lembra o caldeirão da Vila Belmiro, mas muito mais vertical. É um inferno jogar lá contra o time da casa. O guia nos mostrou, cheio de orgulho, o vestiário dos adversários. Fica embaixo da arquibancada da torcida mais fanática do Boca, que salta sem parar. É como se os visitantes estivessem em meio a um terremoto. Guerra psicológica. E que pode determinar um resultado.

Enfim, o favorito o é apenas em teoria. Na prática, as coisas são bem mais complicadas. E é por isso mesmo que a gente ama esse esporte.

* Originalmente publicado no Esportes do Estadão

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