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Afinal, é paulista ou paulistano?

Luiz Zanin Oricchio

02 de abril de 2008 | 00h48

Antes de o campeonato iniciar, poucos acreditavam que algum time do interior fosse chegar à semifinal. Lembrávamos de que no ano passado chegaram Bragantino e São Caetano, mas, no fundo, todo mundo achava que lá estariam, para disputar a taça, os quatro de sempre. Pois bem, não será assim. Um – o Guará – já está classificado. E, apesar de duas vagas ainda estarem em aberto, o cenário mais provável diz que a outra ficará com a Ponte Preta.

Se der a lógica, teremos a seguinte classificação, do primeiro ao quarto: Guaratinguetá, Palmeiras, São Paulo e Ponte Preta. Dois ‘grandes’ da capital, dois do interior.

Claro que o ‘cenário’ pode ser outro. O São Paulo pode perder para o Juventus; a Ponte pode tropeçar diante de um Santos desinteressado, o Barueri pode entrar, o Corinthians também, etc. Tudo pode e tudo ainda está aberto para quatro clubes. Mas há alternativas menos prováveis. Se tivesse que fazer uma aposta em dinheiro seria com Guará em primeiro e a Ponte beliscando a última vaga. Caso isso aconteça, dois grandes da capital matam-se na semifinal e dois do interior fazem o mesmo. Conclusão: interior x capital na finalíssima.

Seria, em minha opinião, desfecho justo para um campeonato que saiu melhor do que a encomenda. Tecnicamente, não vimos grande coisa. Mas o futebol brasileiro, como se sabe, deixou de ser grande no plano interno. Então, é isso mesmo o que se poderia esperar: certo nivelamento entre equipes, o que torna compreensível que Guará e Ponte disputem o título contra clubes que têm muito mais grana, torcida e conquistas.

É esse o retrato do futebol paulista, que espelha a realidade do futebol nacional. E, para que o retrato saia nítido e justo, seria indispensável que os times do interior tivessem o mando em suas casas. Nada dessa maracutaia de trazer todos os jogos para a capital. É de elementar justiça que cada time jogue em seu estádio, seja ele na capital, no litoral ou no interior. Afinal, o campeonato é paulista e não paulistano. Ou não é?

LEI PELÉ, AINDA

Recebi várias mensagens a propósito do comentário da semana passada sobre a Lei Pelé. O pensamento brasileiro ainda é ingenuamente binário. Se você não é isso, é o oposto e ponto final. No caso, se alguém faz reparos à Lei Pelé, é acusado de ser favorável à iniqüidade da Lei do Passe. Não é o caso deste cronista, que espera, em sua vida cotidiana e naquilo que escreve, passar ao largo desse modo maniqueísta de raciocinar.

Entendo que a lei é um avanço, mas precisa de reparos que dêem maior poder de barganha aos clubes na hora de contratar, renovar contratos e negociar. Esse maior poder (tempo de contrato, idade mínima para contratar, valor da multa maior em relação ao salário, etc.) fortaleceria os clubes. Não apenas para manter atletas por mais tempo, mas para negociá-los em condições melhores. Seria uma forma de capitalizar os clubes para que possam substituir à altura os que se forem.

Do jeito como é, a Lei Pelé parece um bilhete premiado para todos. Menos para o futebol brasileiro e seu público-alvo, a torcida. Seria como um sistema educacional que produzisse escolas maravilhosas para seus proprietários, excelentes para os professores e péssimas para os alunos. Se alguém não deseja enxergar essa distorção do futebol brasileiro, é direito seu. Mas não se pode pedir a todos que dêem uma de avestruz.

(Coluna Boleiros, 1/4/08)

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