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Adorável Pivellina

Luiz Zanin Oricchio

28 de maio de 2012 | 16h53

Na primeira sequência de Adorável Pivellina, uma mulher já de certa idade, Patti (Patrizia Gerardi), procura por seu cão num jardim. A câmera (na mão) a acompanha. Patti não encontra o cachorro fujão (ele reaparecerá depois), mas acaba por achar uma criança sozinha, num balanço, a garotinha de que fala o título em italiano.

A mãe deixou um bilhete e uma foto, e mulher resolve adotar a pequena Asia (Asia Crippa), apesar da insistência do marido, Walter (Walter Saabel) em entregar o caso à polícia. Casal de artistas de um cirquinho mambembe, nota-se que tem grandes dificuldades para ganhar a vida. Patti, no entanto, se afeiçoa à garotinha e a integra à vida da pequena trupe.

O filme embarca logo de saída em um tom documental que não deixa de surpreender o espectador. Muitas cenas são como que registradas em tempo real, como se perguntassem ao público, mas, afinal, onde está a história?

Ora, como sabemos, muitas vezes a graça da coisa reside, exatamente, na observação do acontecimento vivido, nessa espécie de simulacro “da vida como ela é”, tão rente ao real quanto seja possível ao cinema. No caso, o cotidiano desses personagens de um circo pobre, que, por acaso, se situa na Itália, mas poderia ser em qualquer lugar, e aqui mesmo, no Brasil.

A situação é universal e, ao mesmo tempo, italianíssima. Tudo se passa nos arredores de Roma, naqueles arrebaldes meio desolados, cheios de edifícios populares e que foram locação favorita de alguns filmes de Pier Paolo Pasolini. A referência a Pasolini, aliás, se amplia num passeio à feia praia de Óstia, onde ele foi assassinado por um garoto de programa, em 1975.
De qualquer forma, é sempre um desafio para o diretor (no caso uma dupla, o austríaco Rainer Frimmel e a italiana Tizza Covi) manter o interesse do espectador num projeto como este.

Eles vencem a aposta com uma série de trunfos nas mãos. Primeiro, a criança é encantadora, de fato. Mas, se sabe, péssimos filmes também são feitos com crianças adoráveis. É que, no caso, os “dotes” da menina Ásia Crippa são utilizados com inteligência pela dupla. Há, também, a espontaneidade dos atores naturais, que fazem os personagens como se interpretassem as próprias vida, o que é bem caso. Em especial, a figura de Patti, com seus cabelos vermelhos e ar protetor de mamma romana. Com diálogos improvisados, o filme adquire frescor notável.

Por fim, introduz-se um elemento de suspense em toda essa situação. Quem será essa mãe, que abandonou a “pivellina” encantadora, ou, pelo menos, a deixou emprestada por algum tempo à outra? Essa pergunta fica implícita, rondando o filme e, embora não formulada de todo, lhe dá um dinamismo psicológico notável. Não conseguimos evitar a pergunta implícita: e com quem ficará a pequena no final?

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