Adoniran, a alma triste da cidade
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Adoniran, a alma triste da cidade

Luiz Zanin Oricchio

24 de janeiro de 2020 | 20h31

 

Em Adoniran – Meu Nome é João Rubinato *, o diretor Pedro Serrano aborda um personagem singular, tido como uma espécie de signo proletário da cidade de São Paulo, seja lá o que isso signifique. Rubinato era filho de imigrantes italianos pobres (uma quase redundância, pois a imensa maioria das pessoas emigra por precisão e não por boniteza). Exerceu mil atividades durante a vida, de entregador de marmitas a cômico, ator, compositor, e, por fim, ícone maior da paulistanidade.

Adoniran Barbosa soube, como nenhum outro, enxergar a poesia dura escondida nos cantos da metrópole cinza e indiferente. Conforme conta o empresário Pelão, ele, já famoso,  gostava de entrar pelos cortiços do Bixiga, seu bairro de eleição, “para ver as pessoas”. Falar com elas, ver como estavam, como tocavam suas vidas difíceis. Ou seja, reencontrar o material de inspiração de sambas tristes como Iracema, Pode Apagar o Fogo, Mané, Saudosa Maloca e outros tantos.

Um depoimento pungente é o do artista gráfico Elifas Andreato, que desenhou a capa de um disco comemorativo dos 70 anos de Adoniran Barbosa – quando ele já não gozava da fama anterior e enfrentava dificuldades. Elifas desenhou o rosto de Adoniran como um palhaço com lágrimas nos olhos. Um executivo da gravadora disse ao artista que talvez Adoniran não entendesse a homenagem, que talvez prejudicasse as vendas. E então Elifas desenhou uma capa alternativa, mais convencional.

Tempos depois, disco pronto, recebe um telefonema do próprio Adoniran o repreendendo: “Elifas, eu sou mesmo aquele palhaço triste da primeira capa e não o alemão que você desenhou depois”.

Elifas se penitencia: “Como eu pude pensar que um artista do tamanho do Adoniran não entenderia meu desenho? Como renunciei a ele apenas porque um executivo teve receio de uma reação negativa?”

O filme é um mergulho não apenas na arte e no personagem de Adoniran, mas nos meandros dessa cidade triste em que São Paulo se tornou. Desfaz por completo o mito de que Adoniran era apenas engraçado (Elis Regina, com sua lucidez, já havia percebido isso).

Sob seu humor sardônico, a fala “errada” e italianada, o aparente descaso com temas fundamentais, havia toda uma preocupação com os desvalidos deste mundo, com os “maloqueiros que não tinham onde morar”, como diz a letra do seu samba mais famoso. Eles continuam por aí, abandonados e hostilizados pela cidade ora indiferente ora agressiva.

Foi endereçada a eles a poesia de Adoniran, que só ganhou respeitabilidade entre intelectuais quando, a pedido de Pelão, o nosso maior crítico literário, Antonio Candido de Mello e Souza, escreveu um consagrador texto de contracapa para um novo LP. Um tanto esquecido, Adoniran só voltou às manchetes ao morrer, deixando apenas uma casinha para a viúva. Morto, tornou-se um ícone, “a cara de São Paulo”, segundo o clichê jornalístico evocado a cada aniversário da metrópole. Ou dele, Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, em Valinhos.  

Assim é o Brasil. Só valorizamos o que perdemos. Bem, hoje em dia talvez nem isso.

Filme visto durante o Fest Aruanda 2018. O texto, com algumas modificações, é o escrito naquela ocasião. 

 

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