Adeus, mestre Kiarostami
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Adeus, mestre Kiarostami

Luiz Zanin Oricchio

04 Julho 2016 | 20h38

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Amanhã saem no jornal nossas matérias sobre o grande Abbas Kiarostami, morto aos 76 anos.

Mas não dá para deixar de registrar ainda hoje esse desaparecimento tão importante para o cinema. A gente sempre lamenta cada morte. Mas Abbas foi mesmo um dos grandes, dos insubstituíveis, um dos últimos em atividade que merecem o título de mestre.

Várias vezes conversamos a respeito, Rô e eu, dizendo que o cinema iraniano nos havia legado cineastas maravilhosos, como Jafar Panahi e outros, mas que o top era mesmo ele, Kiarostami, o pai de todos, o inovador, o inquieto, aquele que sempre evoluiu e nunca se acomodou, apesar de tantos prêmios, reconhecimento e glória.

Intuíamos essa grandeza desde os primeiros filmes que dele vimos por aqui, como A Casa do Meu Amigo e E a Vida Continua, que nos pareciam sutilmente neorrealistas, embora contivessem algo que os destacava da escola italiana do após-guerra.

E ele foi evoluindo, mostrando coisas como nunca havíamos visto, como os diálogos de Gosto de Cereja, por exemplo. Curioso: para Kiarostami, o interior de um carro era um espaço de intimidade no qual coisas inesperadas podiam acontecer, quando dois personagens ficavam a sós, às vezes parados no trânsito, e trocavam ideias.

Acho Ten e Five dois filmes estupendos e inquietantes. E sei que impressionaram muito a Jean-Claude Bernardet, que os analisou em Caminhos de Kiarostami, seu grande sucesso editorial.

Fiquei pasmo com Cópia Fiel, um dos seus filmes estrangeiros, com uma reviravolta surreal que nada ficaria a dever às de Buñuel. Era Kiarostami se reinventando e discutindo a cópia e a autenticidade na era do simulacro. E houve seu misterioso filme japonês, Um Alguém Apaixonado, que acaba sendo seu último.

Dói dizer isso, porque outro dia mesmo, conversando com a Rô, não me lembro a respeito do quê, dizíamos que Kiarostami andava muito sumido, não havia notícias. Provavelmente está envolvido com mais um filme, pensamos. Um desses que vai tirar o tapete debaixo dos nossos pés porque será tudo, menos aquilo que esperamos. Como Shrin, a peça teatral que víamos apenas refletida nos rostos das mulheres que a assistiam, um experimento radical do dispositivo estético.

Mas não era nada disso. Ele não estava ocupado, estava doente e não sabíamos. Pena, muita pena. Não teremos o “novo” Kiarostami, que aguardávamos sempre com ansiedade e nunca nos decepcionava.

Adeus, mestre, e obrigado por tudo.

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