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Adeus, Lourenço Diaféria

Luiz Zanin Oricchio

17 de setembro de 2008 | 13h41

Talvez hoje seja difícil imaginar que uma crônica de jornal possa comover uma nação, produzir efeitos políticos e, ainda por cima, causar a prisão do próprio cronista. Foi o que aconteceu com Lourenço Diaféria, em setembro de 1977, quando publicou na Folha de S. Paulo a crônica Herói. Morto. Nós.

Três palavras, três pontos finais, um estranho título. Esse remetia ao texto sobre o sargento Silvio Delmar Hollenbach, que havia pulado num poço de ariranhas, no Zoológico de Brasília, para salvar um garoto que estava sendo atacado pelos animais. O menino sobreviveu. Silvio morreu.

E Diaféria o homenageou chamando-o de herói. Um herói maior do que o Duque de Caxias, patrono do Exército, que, segundo o cronista, havia virado uma estátua eqüestre na qual transeuntes tardios urinavam durante a noite. O tom crítico em relação às Forças Armadas prosseguia ao longo do texto. A crônica é linda, e tocou a todos que vivíamos na oposição. Diga-se de passagem, tocou também aos militares, que mandaram prender o jornalista.

Diaféria teve carreira longa, trabalhou em vários órgãos de comunicação e escreveu diversos livros. Mas a lembrança maior que deixa é mesmo essa crônica. Naquele momento, ele escreveu o que nós todos tínhamos vontade de dizer. Falou por nós.

Diaféria tinha 75 anos e morreu do coração.

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