Adeus a Manoel de Oliveira
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Adeus a Manoel de Oliveira

Luiz Zanin Oricchio

02 de abril de 2015 | 10h34

manoel

 

E o velho e grande Manoel de Oliveira se foi, aos 106 anos. Que bela vida! Trabalhou quase até morrer, deixou uma obra de referência no cinema mundial, com filmes como Vale Abrahão, Non, a Vã Glória de Mandar, Belle Toujours, e tantas outras.

Ano passado estive na Cinemateca de Lisboa e lá assisti a O Velho do Restelo, seu testamento. Um curta-metragem que é um verdadeiro longa, obra de balanço e reflexão sobre o destino de Portugal. Após a sessão, tomei um café com José Miguel Cintra, um dos atores preferidos do diretor. Perguntei-lhe sobre a saúde de Manoel e ele me disse que ele não voltaria a filmar. Que estava lúcido, porém enfraquecido e bem consciente da sua situação.

Manoel deixa um projeto inconcluso e que seria de grande significado para nós. A versão pessoal do conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis. Fique em paz, mestre.

Abaixo, o link para o texto que escrevi para o Caderno 2:

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,mostra-internacional-de-cinema-de-sp-deu-projecao-ao-cineasta-manoel-de-oliveira,1662760

Aqui, a matéria sobre O Velho do Restelo:

LISBOA. Numa sessão na Cinemateca Portuguesa, para poucos jornalistas e à qual o Estado esteve presente, foi mostrado o novo filme do mitológico cineasta Manoel de Oliveira, O Velho do Restelo. Também assistiu ao curta-metragem de 20 minutos o ator Luis Miguel Cintra, que participa de diversos trabalhos de Oliveira e, neste, interpreta ninguém menos que poeta Luis de Camões, autor do clássico da saga marítima, Os Lusíadas.

A sessão foi silenciosa e reverencial e, à saída, as pessoas falavam em voz baixa, tamanho o impacto causado pela obra. Em pouco tempo de filmagem, Oliveira mobiliza figuras míticas da literatura ibérica como Camões, Cervantes, Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes, além de evocar fatos e personalidades fundadores da nação portuguesa, como a batalha de Alkácer-Quibir e o desaparecimento do rei Dom Sebastião.

A sensação de todos é de que se trata de obra testamentária, na qual o diretor, com 105 anos de idade e doente, faz um balanço sintético do que filmou e pensou ao longo de uma filmografia magistral, uma das maiores do cinema do século 20. Oliveira, inclusive, evoca trechos de filmes anteriores como Non, a Vã Glória de Mandar (um balanço do colonialismo português na África) e O Quinto Império (sobre o mito fundador da nação portuguesa), dando ainda mais formato de súmula ao filme que será apresentado, fora de concurso, no Festival de Veneza.

O filme abre com ondas batendo no cais, evocando o destino marítimo da nação portuguesa. Depois segue com imagens do Dom Quixote, de Grigori Kozintsev, enganchado a uma das pás de um moinho de ventos, uma das cenas mais famosas da literatura universal, na qual o Cavaleiro da Triste Figura confunde um moinho com um terrível gigante e o ataca sem piedade.

Depois as cenas se encadeiam com uma conversa num banco de praça em que Quixote (interpretado pelo neto do diretor, e ator frequente em seus filmes, Ricardo Trêpa) dialoga com Camões. O assunto da conversação? O personagem do Velho do Restelo, que dá título ao filme e simboliza, segundo uns, o pessimismo, segundo outros, nada mais que o realismo. Ele aparece no Canto IV dos Lusíadas e manifesta-se contrário à epopeia das navegações. Alguns de seus versos são textualmente citados no filme: “Ó glória de mandar, Ó vã cobiça/Desta vaidade a que chamamos Fama!”Alguns autores entendem contraditória a presença deste personagem num épico laudatório da aventura das navegações. Outros acham que Camões está simplesmente sendo dialético ao sugerir que em toda vitória está contida a derrota implícita.

Vendo-se o destino da então poderosa nação portuguesa não há como lhe negar a clarividência. E ela resplende, clara como água da fonte, nesta lúcida obra-balanço de um cineasta que não deixou de pensar, de um ponto a outro de sua obra, na questão da identidade portuguesa, em sua grandeza e melancolia. É filme reflexivo e para fazer refletir. Portanto, docemente inatual. Oliveira poderia dizer, como disse uma vez o nosso Carlos Drummond de Andrade, que se cansou de ser moderno para apenas ser eterno.

Na saída, tomei um café e conversei por um momento com Luís Miguel Cintra. Perguntei-lhe se via com frequência Oliveira e como andava o mestre. “Triste, porque consciente da sua situação de saúde, mas totalmente lúcido”, disse-me. Quis saber se havia possibilidade de Oliveira filmar ainda A Igreja do Diabo, um dos seus projetos, baseado num conto de Machado de Assis, mas Cintra mostrou-se cético. “Acho que ele não tem mais condições de enfrentar nova filmagem, ainda que rodeado das pessoas que o auxiliam e o amam”, disse. Entre eles, o fotógrafo Renato Berta que faz grande trabalho em O Velho do Restelo.

Cintra contou ainda uma anedota. Disse que um repórter de um jornal religioso pediu uma entrevista e Oliveira recusou-se. Quando Isabel, sua mulher, soube que o homem trabalhava em tal jornal, e sendo ela bastante carola, começou a falar com o homem, longamente. Oliveira sorriu e falou para Cintra: “Isabel está a dar ao homem a entrevista que eu nunca darei”. Como se vê, o sentido da ironia não abandonou o velho mestre.

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