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Adeus a Cesar Ades, um grande professor

Luiz Zanin Oricchio

16 de março de 2012 | 10h02

Leio, chocado, a notícia da morte de César Ades, notável professor de etologia (psicologia animal) da Universidade de São Paulo. O fato de ter morrido com apenas 69 anos, atropelado, aumenta ainda o choque. Foi vítima da violência do trânsito, uma circunstância a que estamos todos sujeitos nesta cidade selvagem.

César foi meu professor no tempo do Instituto de Psicologia da USP e sempre guardei dele a melhor das lembranças. Suas aulas eram shows de inteligência, criatividade e bom humor. Num tempo em que nosso grupo de amigos se interessava apenas por psicanálise (com aquele fanatismo exclusivista dos jovens), ele conseguia nos desvendar os mistérios e o charme do comportamento animal. Às vezes o questionávamos e ele tinha paciência conosco. Era um sábio, já naquela época.

Lembro de uma vez em que perguntei a ele, durante uma aula, se ele tirava consequências do comportamento animal para o comportamento humano. Ele pensou e disse que, com todas as dificuldades e diferenças que havia entre os dois domínios, se não tentasse fazer essa ponte nenhuma pesquisa teria graça. Acho que entendi a resposta.

Também me lembro de outra coisa interessante e que dizia muito sobre o caráter democrático do César. Naquela época (estamos falando do início dos anos 1970) boa parte do câmpus da USP ainda estava em obras. Haviam plantado os grandes gramados que separavam um bloco do outro e estavam pavimentando alguns caminhos para que as pessoas passassem por eles e não pisassem na grama. César disse que seria mais inteligente deixar as pessoas escolherem seus próprios caminhos, o caminho natural entre um ponto e outro e, só depois disso, depois que a via escolhida já estivesse nua de grama pela passagem das pessoas, colocar o piso. É preciso pisar na grama para aprendermos o nosso próprio caminho.

Era uma inversão de perspectiva em relação à postura autoritária de quem impõe aos outros o caminho a trilhar. Acho que essa história é uma metáfora. Parece que César deu essa sugestão à reitoria que, claro, a ignorou.

“Revi” César há poucos meses, num filme da TV Cultura em que falava sobre seu assunto favorito, o comportamento dos bichos, e com seu humor inigualável. Disse para a minha mulher: eis aí um cara espetacular. Tive a sorte de estudar com ele.

César Ades foi um grande cientista e um excelente sujeito, um dos maiores professores que tive, porque ensinava aos alunos, mais que um conteúdo específico, a alegria de pensar com liberdade.

Que descanse em paz, que é o que a gente diz quando não tem mais nada a dizer.

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