Açúcar amargo
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Açúcar amargo

Luiz Zanin Oricchio

03 de fevereiro de 2020 | 12h08

Maeve Jinkings em ‘Açúcar’

Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, de Pernambuco, investe num tema que vem se tornando recorrente no cinema brasileiro – o “legado” da escravidão como matriz dos desacertos do Brasil com a História.

Um parêntese. Durante muito tempo, nos referimos à escravidão como uma chaga do passado, devidamente sanada pelo ato redentor da princesa Isabel pela Lei Áurea. Assim ensinavam os apaziguadores livros escolares. Hoje vemos de forma mais nítida como este passado deixou como herança um racismo estrutural, intocado e persistente, matriz da injustiça social à brasileira. Não por acaso, em seu livro urgente (porque escrito na esteira da eleição da extrema-direita), Sobre o Autoritarismo Brasileiro, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz inicia a análise por um primeiro capítulo dedicado a Escravidão e Racismo. 

Açúcar é uma reflexão cinematográfica sobre o tema. Como cinema, opera por vias diferentes do ensaio acadêmico.  

Maeve Jinkings interpreta Bethânia Wanderley, herdeira de um engenho extinto e em ruínas. Ela volta à propriedade com intuito de reerguê-la e tem de conviver com uma comunidade estabelecida ao lado. Em especial, terá de lidar com o líder dessa associação, Zé (José Maria Alves) e com Alessandra (Dandara de Morais), a nova faxineira da casa.

O filme explora a relação ambivalente de Bethânia em relação à comunidade: repulsa e/ou pertencimento? Sua madrinha, interpretada pela ótima Magali Biff, representa o ponto de vista da classe média brasileira, ciosa dos seus direitos “históricos”, preconceituosa e arrogante. Não se trata de uma caricatura, infelizmente.  

A dupla de diretores usa livremente a linguagem alegórica e também o recurso ao fantástico para representar a relação racista dos brancos em relação aos antigos empregados negros e, por fim, à escravidão. Tem momentos de intensidade e outros nem tanto. Mas é testemunha, mais uma vez, da necessidade de o país refletir sobre essa questão, ao invés de estacionar em autoimagens tanto amenas como enganosas do tipo “mestiçagem amigável” ou “racismo leve”.

Ninguém mais acredita nesses engodos e é preciso caminhar para a frente, para uma crítica, perdão pela redundância, frontal em relação à discriminação racial. O cinema, como arte-sintoma, tem expressado essa necessidade, de uma ou outra forma.

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