Acaso e necessidade: uma entrevista com Eduardo Coutinho
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Acaso e necessidade: uma entrevista com Eduardo Coutinho

Luiz Zanin Oricchio

19 de junho de 2013 | 18h10

 

/RIO/

Entrevistar Eduardo Coutinho não parece das tarefas mais fáceis. “Não gosto disso”, resmunga assim que é convidado a falar sobre si e sobre sua obra. No entanto, uma vez engatada a conversa, ele fala em fluxo contínuo, inteligente, franco e, pasme, às vezes bem-humorado. Se o papo for legal, pode durar horas. Foi o que aconteceu no encontro do Estado com o autor de clássicos do cinema nacional como Cabra Marcado para Morrer, Santo Forte, Edifício Master e Jogo de Cena. A conversa teve lugar no escritório de Coutinho, no centro velho do Rio, nas dependências do Cecip (Centro de Criação de Imagem Popular) onde trabalha há anos.

Nascido em São Paulo há 80 anos, Coutinho vem sendo alvo de homenagens, que ele rejeita sistematicamente e não sem irritação. Mas de algumas não consegue escapar. Vai à Flip (Festa Literária de Paraty) para um debate público com seu amigo Eduardo Escorel, cineasta e montador de alguns dos seus filmes (e de outros clássicos, como Terra em Transe, de Glauber Rocha).

Há mais: um pequeno livro, com tiragem de apenas 200 exemplares, será publicado pela CosacNaify, especialmente para esta homenagem da Flip. Ele contém preciosidades, como exemplares da faceta esquecida de Coutinho como crítico de cinema, ofício que exerceu entre os anos de 1973 e 1974 nas páginas do Jornal do Brasil. O livreto traz ainda um raro texto de Coutinho sobre o documentário escrito a pedido do crítico Paulo Paranaguá para o festival francês Cinéma du Réel. Há também ensaios de Ferreira Gullar, João Moreira Salles e Eduardo Escorel.

O Olhar no Documentário e Crítica de Cinema (1973-74), volume de 95 páginas preparado para a Flip, é mero aperitivo do robusto livro a ser lançado durante a Mostra de Cinema em São Paulo, em outubro, quando haverá retrospectiva exaustiva das obras de Coutinho.

Na conversa de quase três horas com o Estado, Eduardo Coutinho falou do livro, de suas tentativas como escritor, e lembrou, em especial, de sua carreira errática, uma daquelas trajetórias nas quais a palavra “acaso” tem presença marcante. Por caminhos inusitados e nada retilíneos, a vida o levou a ser um dos documentaristas mais importantes do Brasil e do mundo. Ao longo da entrevista, Coutinho só se desviou de uma questão, clássica nas conversas com cineastas, sobre o próximo projeto. “Não digo. Não sou supersticioso, mas acho que dá azar”. E fim de papo. O resto todo ele disse.

Essa faceta de crítico é menos conhecida. Como foi isso?

Eu trabalhava como copidesque do Jornal do Brasil. Sabe como é: melhorar o texto dos outros. Alguns ficavam p. da vida quando mexiam nos textos deles. E aí ocorreu de eu ser convidado para escrever um pouco de crítica. Nada demais. Quem escrevia para valer era o Ely Azeredo, o José Carlos Avellar e o Alberto  Shatovsky.

Mas você gostava de escrever críticas? Li algumas bem interessantes. Você tem uma boa relação com a escrita?

Eu já nem me lembrava mais desses textos. Eles que encontraram na internet. Aliás, eu tenho uma relação problemática com a escrita. Faz uns 20 ou 30 anos que não escrevo nada. No livro tem esse texto (O Olhar no Documentário), que o Paulo Paranaguá me pediu, eu não tive como recusar. Para ir a Paris eu tinha esse compromisso, então não tinha jeito. Tomei um uísque, peguei uma dessas Olivetti da vida e escrevi até a madrugada, mandei para ele. Desde então nunca mais escrevi.

Um ponto importante da sua carreira é a ida para a Globo, não?

Me chamaram para ir para o Jornal Nacional, e ganhando a mesma m. que eu ganhava no Jornal do Brasil. Então não fui, porque sabia que o JN era o inferno na Terra. Mas aí entra o acaso. Havia uma vaga para o Globo Repórter e fui chamado, agora para ganhar o dobro. E lá fui, como faz-tudo do programa. Produzia, escrevia, montava, traduzia textos, tinha de botar o programa no ar. Escrevia em estêncil para o Sergio Chapelin ler. Fiz um ou outro filme, mas a minha função era botar o programa no ar. Era fértil trabalhar lá. Depois a emissora mudou para a Vênus Platinada, passou da película para o vídeo e então uniformizou tudo.

Você fez algumas coisas muito interessantes lá, como Teodorico – Imperador do Sertão e Seis Dias em Ouricuri.

O Paulo Gil Soares, que dirigia o programa, sabia que eu me interessava por essas coisas então me mandou. Em Ouricuri havia uma seca terrível, então eu filmei um cara, num plano único, descrevendo todo o tipo de raízes que ele havia comido por não ter outro alimento. São três minutos e dez segundo num plano só, coisa impensável na TV. Eu havia lido O Quinze, da Rachel de Queiroz, ela descrevia a seca terrível e como a raiz era a última coisa disponível para comer nessa situação. Então levantei o assunto com eles e passaram a me descrever, inclusive com um humor incrível. Mas com emoção. O plano tinha de ser único. Então eu aprendi duas coisas, a questão da forma é fundamental e saber escutar em silêncio também. Ajuda se você souber alguma coisa do assunto. Se eu não falasse sobre raízes talvez eles nunca tivessem tocado no assunto, tão corriqueiro era para eles.

E o Teodorico?

O Teodorico é um filme extraordinário, porque ele toma à frente e se assume como repórter. Todas as entrevistas com os trabalhadores dele são feitas por ele. Comenta que assim como no galinheiro há dez galinhas e um galo, a natureza manda o homem ser poligâmico. Fala das falcatruas, fala do ginásio que ele pagava para os meninos da fazenda e não paga mais porque iam embora, fala tudo. É incrível. Ele foi amigo de todos os governos, de Getúlio a JK. Tinha os escravos dele, 1400 moradores, que eram 1400 votos. Foi o único cara da classe dominante que eu filmei e não pretendo filmar nenhum outro.

Por quê?

Porque não filmo quem tem algo a perder. Não me interessa. A não ser que você dê uma Michael Moore, que finge estar do lado deles para então denunciar. Eu detesto esse método, é de um populismo de esquerda insuportável.

Como enfrentar a questão de filmar a classe dominante…?

Mas eu não quero fazer! Quem quiser que faça. O que me interessa é filmar o diferente de mim. Eu nunca faria um filme sobre cineastas, porque fui um deles. Não interessa. Seria muito interessante fazer um filme sobre índios, mas eu brinco dizendo que para ir até lá, pegar um aviãzinho monomotor e enfrentar mosquitos, estou fora. Se for fazer um filme sobre gênero, faço sobre mulheres, porque não conheço, nunca fui mulher, nunca serei. Me interessam as experiências que não são as minhas. Nunca fui negro, daí o filme O Fio da Memória, nunca fui mulher, daí o Jogo de Cena. Também não mexo com demagogia, do tipo “o povo é bom”. Isso é uma tolice, o povo é bom e é mau. Tratar o povo como vítima, acho nefasto esse tipo de atitude cristã.

Você tinha em mente terminar o Cabra Marcado Para Morrer, que havia sido interrompido pelo golpe de 1964, ou era um projeto meio arquivado?

Era o que me mantinha vivo. Por causa dessa mudança de filme para vídeo na Globo houve uma interrupção longa, graças a Deus. Então eu pude fazer o Cabra. Montei na moviola da Globo, fiz trucas provisórias, usei a máquina de escrever da emissora, os magnéticos, tudo da TV…e com prazer enorme (risos).

Santo Forte e Jogo de Cena foram divisores de água, não?

O problema era o que fazer depois do Cabra Marcado para Morrer. Em 1997, eu tinha 64 anos, e quis fazer um filme sobre religião filmado num lugar só. O Escorel me disse: ninguém vai aguentar esse filme. Isso, antes de ir para Gramado, onde foi consagrado, e teve grande apoio crítico. A partir daí eu deixei de me preocupar se o filme ia agradar ou não. O Morro Santa Marta, eu tinha cinco mil reais ganhos no Festival de Brasília e fui lá fazer. Daí que eu pensei, agora vou ter uma carreira. Primeiro porque eu tinha de viver e segundo porque se revelou possível.

E Jogo de Cena?

Mulheres que contam histórias, sem esse negócio interpretativo freudiano. Nenhuma delas é atriz ou todas são atrizes. Eu teria um filme de duas horas, com histórias extraordinárias feitas apenas com depoimentos reais. Mas isso eu já fiz. Pensei: vamos botar atrizes. Conhecidas e desconhecidas.  No fundo é um filme de uma simplicidade absoluta.

Num balanço de carreira até agora, seriam esses os filmes decisivos?

Sim, Cabra Marcado para Morrer, Santo Forte, que fez minha carreira renascer. E se tivesse de colocar um terceiro, Jogo de Cena. Até Santo Forte eu era o cara que tinha feito um filme, mas era um filme, poderiam dizer, sobre o golpe, daí vinha sua força, etc. A partir de Santo Forte eu passo a ter uma carreira. E foi um prazer gigantesco fazer um filme que nada tinha a ver com a história e com a política, diretamente. Cada vez eu tento me afastar mais do meramente político.  Não estou mais interessado nisso.

Tudo o que sabemos sobre:

cinema brasileiroEduardo Coutinho

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.