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A volta por cima

Luiz Zanin Oricchio

20 de maio de 2008 | 09h14

Todos colocamos muito de nós mesmos nesse esporte chamado futebol. Por isso talvez seja inevitável que nos interessemos pela chamada ‘vida extra-campo’ dos jogadores. Podemos ser civilizados a ponto de admitir que o que acontece fora das quatro linhas é do foro íntimo de cada um. Não temos nada a ver com a vida particular deste ou daquele boleiro. Ele é um profissional e tudo que podemos exigir é que defenda direito a camisa do nosso clube de coração. Isso é o racional. E funcionaria na prática, fosse a profissão de jogador como outra qualquer, digamos advogado, dentista ou serventuário da Justiça. Sobre o jogador, no entanto, projetamos nossas esperanças e sonhos; projetamos também nossas frustrações, às vezes nossos ódios e preconceitos.

Por isso não conseguimos ficar indiferentes a um momento como o das lágrimas de Denilson depois do jogo contra o Internacional. Denilson marcou, e foi o melhor em campo. Ele, dado como acabado para o futebol, jogador improdutivo, de fantasia, uma espécie de foca amestrada e com prazo de validade vencido. Pois bem, esse jogador retorna, ganha um voto de confiança e reencontra o futebol que há muito não jogava. No domingo, as lágrimas corriam por seu rosto ao dizer que era muito difícil viver quando ninguém acredita mais em você. Por que duvidar dele? Não tenho a menor idéia se Denilson vai continuar a render bem em campo, se sua atuação contra o Inter foi fogo de palha, etc. Isso, o tempo dirá. Mas, que ele teve no domingo o seu momento de volta por cima, conforme aquele samba de Paulo Vanzolini, lá isso ele teve. E foi bonito de ver.

Como também é agradável assistir à redenção de Adriano, que veio ao São Paulo na condição de caso perdido e tem sido o principal definidor da equipe. Dá para ver o brilho de volta ao olhar do Imperador, que vai logo embora para a Europa, mas, pelo jeito, deixa sua passagem breve marcada na memória do torcedor são-paulino. Hoje tudo dura pouco, tudo é espuma. Esse tipo de lembrança é o máximo a que se pode aspirar.

Se não conseguimos ficar indiferentes às lágrimas de um ou ao júbilo do outro, da mesma forma nos envolvemos, querendo ou não, nos escândalos e fofocas do futebol, como se viu com o caso Ronaldo. Também o Fenômeno aos poucos vai se afastando da onda negativa criada com o affair dos travestis. Passada a tempestade inicial, o triunfo pouco duradouro da imprensa marrom, parece que o bom senso vai se impondo. Ronaldo deu uma pisada na bola; apenas isso. Por que crucificá-lo? Quando vi na TV uma charge com Pelé pondo Ronaldo no colo e dando-lhe umas palmadas na bunda, pensei comigo que o caso estava se diluindo através do humor. Lembrei de que o símbolo de Dioniso, o deus grego da festa, da dança e da embriaguez, é um ramo. Os pecados de Dioniso, que são os pecados do excesso, devem punidos com moderação, usando como açoite um raminho inofensivo que não faz mal a ninguém. E é isso mesmo. A tolerância é uma grande virtude, pouco exercida num tempo em que todos se acham investidos da condição de justiceiros e se sentem donos de uma verdade geral e irrecorrível.

NO CAMPO

Com o Brasileirão ainda fazendo seus primeiros movimentos, o jeito é entrar de cabeça numa semana que promete emoções fortes em outras disputas. Hoje, Botafogo x Corinthians; amanhã, Fluminense x São Paulo; na quinta, Santos x América. Acho os dois primeiros jogos equilibradíssimos. Já no terceiro, o Santos deve ganhar, mas conseguirá a vitória de que precisa, com dois ou mais gols de diferença? Essa é a questão.

(Coluna Boleiros, 20/5/08)

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