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A Vida Durante a Guerra

Luiz Zanin Oricchio

19 de novembro de 2010 | 10h14

Não se trata exatamente de Felicidade dez anos depois, mas é quase isso. Quem se lembra de alguns personagens do filme de 1998, que fez a fama de Todd Solondoz, irá reconhecê-los de leve neste A Vida Durante a Guerra. São parecidos, mas não são os mesmos. Parecem um tanto deslocados, assim como o olhar do cineasta que, se permanece ácido, se adoçou um pouco com o tempo. Não muito. Solondz vê com agudeza e sem grandes compaixões o homem americano à luz do século 21. Século de guerra, iniciado, para valer, naquele 11 de setembro de 2001 em Nova York. Nesse mundo confuso, os personagens estão sempre em busca de um papel, como no clássico de Pirandello. Não sabem quem são, não têm a mínima ideia do que poderiam vir a ser. É o mundo de Solondz, goste-se dele ou não.

Os tipos (há muita gente que prefire aplicar esse termo aos personagens de Solondz) movem-se em busca do amor, da esperança ou do perdão. Há o caso de Joy, que descobre que seu marido não está curado por completo de uma certa tendência. Ela se vai, buscando consolo com sua própria mãe e a irmã. “Encontra-se” com um fantasma, o antigo pretendente, já morto, mas cuja imagem lhe reaparece. Não estamos aqui no registro realista e, portanto, a reaparição de um morto pode significar a volta de uma lembrança ou de um tempo que já se foi, ambos associados àquela pessoa.

Há outra irmã de Joy, Trish, que arruma um caso com um aposentado e acha que com isso trará alguma estabilidade à família. E outra irmã, Helen, que fez sucesso em Hollywood, e entende que a família (sempre ela) é menos um abrigo que um peso, e compromete o seu sucesso. Outros personagens vão entrando, como o ex-marido de Trish, que acaba de sair  da cadeia e resolve aparecer para ver como estão as coisas.

Enfim, é uma verdadeira ciranda de relacionamentos, do passado e do presente, que se enrosca sobre si mesma sem oferecer grandes perspectivas de futuro. Mas há muitas surpresas contidas no desenvolvimento das tramas. Pode-se acusar Solondz de ser tudo, menos óbvio e previsível. A tessitura do filme é muito bem costurada. Tanto assim que recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza de 2009.

Há, no entanto, algo que parece típico do cinema de Solondz. Mesmo quando a sua empatia cresce em relação aos tipos que cria, permanece uma espécie de frieza no ar. Como se aquelas pessoas não fossem de carne e osso mas apenas abstrações destinadas a ilustrar uma ideia de mundo, a do diretor. O registro fotográfico, frio ele também, contribui para reforçar nossa sensação de distanciamento. Ora, o distanciamento, em si, não é um mal. Ele apenas nos indica e nos relembra que aquilo que vemos na tela não é a vida, mas uma representação da vida. A vida, tal como é imaginada por uma determinada consciência (o autor do filme) e proposta ao nosso julgamento de espectador. Podemos ou não aderir a essa visão de mundo. Podemos entrar em seu jogo ou recusá-lo.  O distanciamento nos dá uma chance maior de opção do que a relação de fascínio e, portanto, de julgamento limitado, que outro tipo de cinema propõe.

Se o cinema de Solondz pode ser considerado uma arte de ideias, falha no quesito da emoção. Entendemos os dilemas daqueles personagens, seguimos com curiosidade suas histórias e os esforços que fazem para lhes dar  sentido mas não somos tocados pela chama do sentimento. Mesmo quando simpatizamos com os conceitos de fundo, políticos, para dizer numa palavra. O mundo, do jeito que foi estruturado, permanece para sempre estranho a Solondz. Por isso seus personagens se movem no vazio, mesmo quando parecem ter certeza do que estão fazendo. É a condição alienada em sua versão contemporânea, pós 11 de setembro.

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